12/04/2010

A Santa Fé

lírio selvagem da Palestina

"A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer-nos alguma coisa, ou alguma coisa disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão prestes a dizer-nos alguma coisa; esta iminência de uma revelação,
que não se produz, é, talvez, o fato estético
".
(Jorge Luis Borges)



Há ideologias sem ideal que se renove, e talvez sejam mesmo a maioria delas no mundo de hoje. É quando mais importantes que novas ideias são os ideais estabelecidos, e portanto os ideários, e assim qualquer nova ideia passa a ser vista como suspeita, potencialmente uma fonte de desordem ou uma nota desarmonizadora na melodia fechada. Fosse sempre assim e já não haveria civilização, pois o alento da humanidade é o fato de geração após geração poder reinventar-se a si própria e melhorar as formas de convívio. Para uma ideologia estar aberta a novas ideias despontadas em seu bojo é preciso que seja como um bom vinho, sempre em processo de amadurecimento, sempre a melhorar suas notas e seu encorpamento, assim facultando que melhor saboreio dele possa ser proporcionado. Chegamos assim a um símbolo cristão: e há que ser amor para transformar pura água em vinho, e ter amor para que o vinho siga aperfeiçoando-se em vinho, e não desista de sê-lo para transformar-se em vinagre.

Já que tocamos em símbolos, e mistérios cristãos, podemos seguir nesse âmbito e definir o que seria uma Santa Fé. No aspecto das palavras, Santa Fé pode ser compreendido como "crença sadia", acreditar em instruções que tenham substância, sustança, suporte e amparo. A Santa Bíblia diz que devemos confiar apenas em Deus, e não em outro homem. Porque o homem nada é se não espelhar a essência divina, se não expressar em sua vida aspectos incorruptíveis que provenham de sua origem mais pura e fundamental, que era o estado de harmonia que possuíamos no seio de Deus. A vida material porcerto nos oxida, a todos, nos corrompe e nos contamina, e cabe ao homem empreender o eterno retorno às suas fontes imateriais, em eterno reciclar-se, sem perder sua conexão com suas origens nem com seus propósitos - é daí que vem a palavra "religião", o religar-se, não perder-se de si mesmo para não adulterar-se, para não trair sua própria essência (evoluir sim, mas sem deixar de ser "vinho" jamais).

É o homem, o ser humano, um contraditório por si próprio: este é o preço do livre-arbítrio, o pecado original pelo qual respondemos coletivamente enquanto quisemos nós ser responsáveis em fazer nossas próprias opções, decidir entre o bem e o mal por nós mesmos, e não estar sujeitos a uma obediência cega a um Criador que nos ordenava apenas o que podíamos e o que não podíamos fazer. Ansiamos por responder individualmente a nossas próprias decisões, e pagamos por essa liberdade nessa dimensão material onde há tanto a vida quanto a morte, e onde para nos defender precisamos organizar-nos em sociedade, onde, portanto assumindo o contraditório, temos sempre uma liberdade controlada, sujeita ao controle de grupo, de modo que, por não querermos obedecer cegamente a um Pai-Mãe Criador, nos vimos obrigados a obedecer (muitas vezes iludidos ou iludindo-nos) a outros homens, a eles reverenciando sua autoridade à frente de nossas forças, de nosso suor e de nosso sangue. É por isso que penamos neste mundo, porque as formas de poder que criamos sempre favorecem uns em desfavor de outros, e assim caminha a humanidade sobre tantas desumanidades: pois em vez de obedecer à imparcialidade que existia perfeitamente por parte de Deus-Todo, passamos a obedecer às parcialidades que agem imperfeitamente da parte do homem.

Em quem confiamos? A lei é para todos, dizemos nós, mas as leis feitas pelo homem até ontem sempre estiveram sujeitas ao valor das autoridades. Em nome de preservar a autoridade de instituições humanas como o Estado, a Igreja, o Sistema Acadêmico, o Sistema Financeiro, o Congresso, etc., a lei não é aplicada muitas vezes a pessoas em posição de autoridade. Torne-se autoridade e a lei favorecerá os privilégios de sua posição, até o ponto de omitir-se na impunidade, pois mais importante que os homens são consideradas as instituições, e em nome do "bem-estar comum", muitos crimes deixam de ser punidos: são acobertados, mascarados, protegidos, em muitos casos por suas próprias vítimas. Não precisamos nem dar exemplos, o leitor poderá por si próprio lembrá-los, pois a História está repleta deles, e a grande esperança das novas gerações é de que os avanços tecnológicos da velocidade e volume de informação venham a favorecer a transparência das instituições e a isenção e não-omissão do sistema judiciário. Sim, as leis humanas são falhas e também dependem de interpretações calcadas por hábitos e padrões culturais vigentes, como o pensador francês Montaigne há cinco séculos atrás já elucidava em sua leitura do mundo em transformação na época dos "grandes descobrimentos".

A lei divina, entretanto, existe, e é justa. Podemos compreende-la inclusive como uma lei da Física, uma lei de Harmonia Universal. Toda força empreendida em um sentido recebe uma força equitativa em sentido contrário. A Física pode ser incapaz ainda de quantificar certas energias, como as forças do pensamento e as do inconsciente, mas a milênios isso vem sendo exercitado no campo da Filosofia e traduzido inclusive em artes marciais do Extremo Oriente. O que sabemos grosseiramente no Ocidente é que a violência de um murro contra uma parede se reflete em igual agressão contra o punho de quem golpeou: o que seria mais elaborado de compreender é que, quando Cristo fala nos evangelhos canônicos que, se te golpeiam numa face, podes oferecer a outra, é que, se não exerces o direito de resposta (não te deixas mover pelo reflexo de revidar a agressão sofrida) já há uma resposta natural do agressor, que à sua injustiça recebe a devida justiça de retorno. Faça o bem, deseje o bem, e receberás em dobro; faça o mal, deseje o mal, e o receberás de volta, sem que por isso precise atuar a vontade do outro - a lei de equilíbrio universal é uma lei de perfeita compensação. Ninguém é capaz de construir sua felicidade a custo da infelicidade alheia, e isto não é uma força moral (normatizada por convenções) e sim uma potência ética (capacitada por injunções). Simplificando: a cada um, o peso da própria cruz, mas unidos somos mais fortes, podemos tornar mais leve o rigor da caminhada. A lei divina, universal, é perfeita: a lei humana, parcial, falha. Confiemos mais em Deus, portanto, e não apenas no juízo dos homens.

Voltamos assim à Santa Fé. E agora faz-se o momento de abordar a fé no Daime. Reza esta Doutrina religiosa amazônica que a comunhão de uma bebida miraculosa nos serve de veículo para obter de Deus aquilo de que necessitamos: "Dai-me fé", "Dai-me amor", "Dai-me segurança"... - são muitos os pedidos, e quem se esforçar por merecer é por Deus recompensado. Irineu Serra, que em sua visão da Rainha da Floresta como Mãe Criadora, Mãe Celestial, Senhora da Conceição e todos os epítetos da Virgem Maria do catolicismo popular, predicou tal Doutrina e não rotulou o nome de seu vinho sob qualquer substantivo ou adjetivo, apenas o categorizou como veículo de invocação dos seres divinos do plano espiritual, afirmando em sua prática ritualística um método seguro de convivência das dimensões material e espiritual para seu consumo; jamais também colocou como propósito de sua doutrina o proselitismo evangelizador, a criação de uma organização religiosa ou sectária. Sabia ele das imperfeições humanas que seriam obstáculo constante a semelhantes pretensões.

Doutrinar o mundo inteiro sem a nada temer, para esse Mestre navegador dos planos superiores, podia ser realizado no singelo âmbito de seu salão de estudos, apenas comungando da seiva florestal e concentrando-se no Cristo interior. Recebendo a força daquela poção amazônica, o ritual facultava a aprender manejá-la para direcionar sua luz a benefício dos mais necessitados. Apenas isso, na simplicidade de um compromisso escolar de querer aprender e ter bom comportamento sendo obediente às regras de convívio, e isso se refletiria não apenas na comunidade, não apenas no bairro, não apenas na cidade, na província, no país, mas no mundo inteiro, em toda a humanidade. A fé não move montanhas? Se os membros de sua casa fossem fiéis à Doutrina (não ao homem que a transmitiu sob ordens da Rainha que lhe era a professora, pois isso seria apenas a consequência, não o objetivo), fiéis ao ensinamento ali proporcionado tendo como veículo (e não como combustível) aquela bebida milagrosa, aí sim, se acenderiam na humanidade toda as luzes do aperfeiçoamento do ser humano, resultando assim em paz, em benesses do amor e da caridade, verdadeiros ensinamentos cristãos.

Esta a Santa Fé, a "crença sadia". Não uma doutrinação de almas que dependesse de uma presença material, de uma instituição humana multiplicada em diferentes fronts culturais nos cinco continentes, pois isto seria incompatível com a simplicidade e a humildade requeridos para o serviço espiritual. Já ali, no microcosmo do território acreano, quinhão ocidfental brasileiro, mostrava-se ser difícil estar regulado pelas opiniões alheias, pelas normas jurídicas e convenções sociais das autoridades e suas correspondentes instituições pautadas no "mundo de ilusão"; como poderia ser, se isto necessitasse abarcar não só a própria região berço das plantas componentes da bebida, mas também o resto do mundo onde isso se revestiria de um caráter de "exotismo", precisando ser traduzido e portanto estando sujeito a interpretações pessoais ainda mais distantes da realidade? Irineu Serra não apregoou ter uma bebida que fosse uma panacéia universal, um remédio para todos os males da humanidade, uma cura única para todas as doenças: não mentiu, não enganou, não iludiu, e sempre procurou ser fiel para com os ensinamentos a ele transmitidos diretamente pela Rainha da Floresta ou através de seus companheiros de serviço. Foi um homem coerente consigo mesmo, compreendeu seu carma e transformou-se para obter seu darma. Avatarizou-se, assim, por seus próprios méritos, unificando-seà bebida que um dia conheceu como comunhão indígena com a floresta e à qual por seu trabalho espiritual ao longo de sua vida teve a alquimia de prescrever como comunhão cristã.

A humildade e simplicidade do Mestre presente em matéria fez com que, entretanto, em seus últimos anos de vida Irineu Serra visse com naturalidade a ingenuidade de muitos de seus seguidores em quererem arvorar-se como autoridades da nova Doutrina. De antemão sabia os que, depois de sua morte, por qualidades naturais de liderança, pretenderiam demonstrar tal autoridade em posições de chefia e poder. Em um de seus últimos hinos, disse que para estar junto ao Poder da Virgem da Conceição era preciso ter fé e amor, e não esquecer de dar sempre valor aos seus irmãos. Isso ele, o Mestre, fez: deu valor a todos que o acompanhavam, "na esperança de um dia" eles compreenderem o que lhes havia sido ensinado. Assim ele fez suas despedidas, deixando a matéria pesada pelas contingências da experiência da vida humana, e transcendeu, no sentido literal da palavra, as dimensões humanas, realizando as promessas que por muitos anos lhe foram entregues pela Mãe Divina.

Os que ficaram como seus continuadores, presos às limitações de seus aspectos humanos, viram-se às voltas com enigmas encerrados no cerne da Doutrina e que não teriam capacidade de explicar: o trono do Mestre não aceitou substitutos, e todos que ousaram pretender saber de tudo e quiseram alterar uma vírgula do que ele deixou disposto, todos estes foram penalizados, fossem boas ou más suas intenções, pois o critério fundamental de seguir semelhante Doutrina é ter fé. A Santa Fé. Ainda hoje procuramos elucidar, esclarecer alguns pontos como, por exemplo, o fato do salão de estudos do Mestre aceitar apenas os rituais por ele prescritos, sendo que todos os demais estudos religiosos que queiram ser realizados com sua presença, isto é, a comunhão do "Dai-me", são acompanhados por ele apenas se efetivados em outro ambiente pertinaz. Aos tropeços, e sob rebeldias, expandiu-se o leque dos admiradores da obra do Mestre Irineu Serra em todo o mundo, o que não deixa de possuir grande mérito, sem dúvida, mas que não condiz com sua Doutrina verdadeiramente se não estiver identificado com as normas rituais de preparo e consumo da ayahuasca por ele ensinadas, e, principalmente, com os padrões de conduta humilde e despretensiosa por ele observados. No âmbito da Fé, podemos confiar que nada nos falta, Deus obra por nós: é a leitura do evangelho de Mateus, capítulo 6 (vv. 25-34):

"Portanto, eis que eu vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, nem pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais do que as vestes?
Olhai as aves do céu: não semeiam, nem ceifam, nem recolhem nos celeiros, e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só segundo à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.
Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado".

A estas palavras de Jesus Cristo, acrescenta-se no evangelho de Lucas, capítulo 12, essa lembrança:

"Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino".

Não cabe a nós engradecer-nos, mas sim à vontade do Pai, à bondade da Mãe. A quem muito foi dado, muito lhe será exigido. Quem se satisfaz com o que tem, a este nada irá faltar. Assim é a Santa Fé. Não tem auto-indulgência nem indolência, não tem medo nem a nada cobiça, segue simplesmente com amor o que lhe foi entregue. Irineu Serra como Mestre da Doutrina da Rainha da Floresta deixou bem claro o que queria e o que seria o compromisso de seus companheiros. Ninguém é perfeito, mas ninguém pode deixar de querer aperfeiçoar-se. Isto é o mesmo que dizer que ninguém sabe tudo, mas ninguém pode deixar de querer aprender. A fé, mesmo que seja do tamanho do menor dos grãos, é capaz de realizar milagres. O que a Doutrina professa é a mesma verdade do Cristo: é isso que viemos repetindo o tempo todo, e tudo o mais é desnecessário dizer. O que é preciso é entender, ajustar a ótica que foi distorcida por reflexos do mundo de ilusão. Se enxergarmos corretamente o tesouro que nos foi entregue, será o mundo externo que terá que ajustar seu enfoque. Assim surgirá um novo mundo, do qual estamos muitos à espera. Cabe a cada um decidir agora em que tipo de mundo almeja viver.

3 comentários:

Tiago Botelho disse...

Olá irmandade! Gostaria de divulgar o trabalho que estou realizando no endereço www.artedoastral.blogspot.com

Trata-se de aquarelas que contam passagens da vida e do hinário do Mestre Irineu.

Abraços e PAZ !

Douglas Evangelista disse...

Estava com saudades daqui. Gostei muito de ver novos posts. Concordo plenamente com a idéia expressa pelo artigo. Os mecanismos de poder existentes em qualquer agrupamento de humanos tornam-se verdadeiras doenças quando mal utilizados. Se é que há bom uso deles. A lei é simples: cada um dá o que tem, não precisa ninguém dizer; o resto é ter Amor.
Obrigado, Eduardo.

Douglas Evangelista disse...

Estava com saudades daqui. Fiquei muito contente em ver novos posts. Concordo plenamente com a idéia expressa pelo artigo. Os mecanismos de poder, quando mal utilizados, dificultam ainda mais o já difícil exercício que é pertencer a um agrupamento humano. A lei é simples: ter Amor; "cada um dá o que tem, não precisa ninguém dizer".
Obrigado, Eduardo.