22/08/08

"Eu Sou Feliz", de Tufi Rachid Amin (novo)


Tufi Rachid Amim nasceu em Rio Branco-Acre, em 10 de maio de 1952, originário de família sírio-libanesa que migrou para o Norte do Brasil, atraída pela pujança econômica da borracha amazônica. Quando criança estudou na Escola O Cruzeiro, fundada pelo Mestre Raimundo Irineu Serra, no Alto Santo, e teve como professora dona Percília Matos da Silva. Timidamente o menino Tufi observava o Padrinho Irineu Serra nas visitas periódicas que este fazia a escola. Ainda garoto, Tufi começou a trabalhar para ajudar a família. Foi baleiro, catraieiro, vaqueiro, “marreteiro” (compra e venda de gado), ajudante de caminhão, caminhoneiro, taxista, trabalhador rural e policial militar. Atualmente é sargento aposentado do Corpo de Bombeiros e pequeno proprietário rural.

O sargento Tufi é filho do comerciante Rachid Amim Abrahim. Da amizade do “turco”[1] Rachid com o maranhense Irineu Serra surge o convite para que Benjamim Rachid Amim, filho do velho Abrahim e irmão de Tufi, fosse padrinho de casamento de Raimundo Irineu Serra com a dona Raimunda Feitosa, isso no já distante ano de 1937.

Tufi é casado com a Sra. Herotildes Sales Amim, pai de cinco filhos – Rachid, Liliam, Leila, Suzy e Lisandra – e avô do menino Douglas.

Foi na condição de proprietário rural que o amigo Tufi, em novembro de 2004, se viu envolvido numa inusitada história do “seqüestro da jumenta”, que devido ao insólito do fato ganhou as manchetes nacionais. Uma história que seria cômica se não fosse trágica, isto é, não envolvesse questões de segurança para si e sua família.


Polícia investiga "seqüestro" de jumenta


Primeiro eram banqueiros. Depois foi a vez de comerciantes e publicitários. Mas agora nem nossos amigos quadrúpedes têm se salvo. A Polícia Civil do Acre investiga o "seqüestro" de uma jumenta de quatro anos, que foi furtada há três meses de uma fazenda em Rio Branco (AC). No estábulo, onde o animal costumava passar a noite, o dono da propriedade, o policial militar aposentado Tufi Rachid Amim, encontrou um bilhete com um pedido de resgate: R$ 1.500. Ele afirmou que depois do "seqüestro" passou a receber telefonemas com ameaças contra ele e contra o animal. Segundo o delegado, o Código Penal considera seqüestro apenas os crimes que envolvam a subtração de pessoas, não de animais. O crime está sendo tratado como extorsão, cuja pena prevista é de quatro a dez anos de prisão.

(Folha Online)


Tufi conheceu o Daime no ano de 1979, numa visita ao Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz”, a Barquinha, presidida pelo Velho Pastor Manuel Araújo, da qual foi freqüentador.

No ano de 1985 se filia a linha do Mestre Irineu, a Doutrina do Santo Daime, no Centro Livre presidido pelo Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento, Centro ao qual pediu fardamento.

Nesta casa – então denominada CICLU, atual Centro Rainha da Floresta – Tufi exerceu as funções de subcomandante, comandante e gestor da Diretoria. Foi nesse período que, na condição de um dos organizadores da inesquecível comemoração do Centenário do Mestre Irineu, o seu Tufi hospedou a comitiva do Padrinho Alfredo Gregório na sua confortável casa na Vila Irineu Serra, e os “causos” de tão memorável festa ainda está viva na memória dos participantes, como se tivesse ocorrido ontem...

Em 1994, junto ao padrinho Luiz Mendes, o sr. Ladislau Nogueira, amigos e familiares, Tufi contribuiu decisivamente para a fundação do CICLURIS, também situado na Vila Irineu Serra, tendo o Ladi como Presidente, Tufi como Vice e Luiz Mendes como Conselheiro.

Em 1998 o CICLURIS é rebatizado de CICLUJUR – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Juramidam – com a mesma composição da diretoria, Ladislau Nogueira, presidente; Tufi Amim, Vice-Presidente, enquanto que o Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento adentrava a floresta para firmar a sua Fortaleza.

Foi na condição de dirigente daimista que Tufi Amim participou, como representante (suplente), do Grupo Multidisciplinar de Trabalho do Conselho Nacional de Drogas (GMT do CONAD), instituído como resultado do Seminário sobre a Ayahuasca, organizado pelo Governo federal em março de 2006, na cidade de Rio Branco, tendo o objetivo de criar normas e regulamentar o uso religioso da ayahuasca.

O hinário “Eu sou feliz” que aqui apresentamos, começou a ser recebido do Astral Superior por Tufi Amim no ano de 1987. O primeiro hino, “Eu sou feliz”, é que dá título ao hinário que então se inicia.


Eu sou feliz, eu sou feliz, eu sou feliz,

Eu sou feliz, porque estou no meu país.

No meu país, que o Senhor me ordenou,

pra eu cumprir esta Missão com meus irmãos.


O apóstolo dos gentios nos diz que "a nossa pátria é nos céus"[2], portanto estou feliz porque estou no meu país - o reino dos Céus - onde mora o meu Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que me ordenou voltar a Terra, “pra eu cumprir esta Missão com meus irmãos”: cerrar fileiras com o Rei Juramidã para replantar a Santa Doutrina de Jesus Salvador.

O hinário de Tufi Amim tem diversos hinos de cura, entre os quais, destaca-se “O Doutor”, onde um ser curador se apresenta:


Eu sou, eu sou, eu sou o teu doutor,

trazendo o remédio pra curar a tua dor.


E logo a seguir anuncia a causa da doença: “a tua dor foi você quem criou” - a implacável lei divina do carma, de causa e efeito. Porém, rogue e chame pelo Doutor Divino, Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ele se apresenta “trazendo o remédio pra curar a tua dor”.

Um dia solene de execução do Hinário “Eu sou feliz” é no 3 de janeiro, aniversário do Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento. Neste dia, no coração da floresta amazônica, às margens do rio Xipamano, no Seringal Fortaleza, sede do CEFLI (Centro Eclético Flor de Lótus Iluminado), quando com muita pompa e vigor inicia-se o hino 25 (A Força) aqueles que têm o privilégio de estar presente naquela hora e lugar, na força e luz do Daime sentem-se tomados por um “tsunami” de amor e regozijo ao cantar:


A força chegou,

O mar balanceou.

A terra estremeceu,

Deus do céu foi quem mandou.


No hino 33 é invocada a “linha de Arroxim”, legião de seres curadores[3] da Corte Celestial.


Eu vou chamar

na Linha de Arroxim.

Os meus caboclos

para vim aqui curar.


Os caboclos aqui chamados, seres divinos do panteão ameríndio, são comandados do Astral pelo Padrinho Irineu, o Rei Juramidã.


Os meus caboclos

São da linha de Arroxim

Os meus caboclos

Pertencem ao meu Padrinho.


No hino de número 36 (Lembrança do Centenário), o Eu Superior que habita o homem simples do povo, Tufi Rachid Amim, se apresenta:


Jura é Papai,

Midam são seus herdeiros.

Eu sou Adão Midã,

Eu também sou herdeiro.


Afirmando fazer parte de uma família espiritual, a nobre família do Chefe Império Rei Juramidã - família da qual Raimundo Irineu Serra Juramidã é o digníssimo patriarca.

Nesta gravação do hinário “Eu sou feliz” são apresentados dois novos hinos, o 39 e 40, incorporados à “linha do hinário” por Tufi Amim no segundo semestre de 2007.

O hino de número 39, “Saudamos o grande dia” é um hino comemorativo de datas festivas; de exaltação e louvor ao General Juramidã. É uma marcha/valseado e deve ser bailado com os mesmos movimentos que o hino 111 do Hinário do Mestre Irineu (“Estou aqui”) – primeiro verso, marcha; segundo verso, valseado e assim sucessivamente.



39 - Saudamos o grande dia (Marcha / Valseado)


Saudamos o grande dia

Que o nosso pai nos deixou

Saudamos o grande dia

Com amor e alegria


Vamos todos marchar em frente

Ouvindo o toque do clarim

Vamos todos marchar em frente

Traí traí traí...


Nosso Mestre sempre na frente

O comandante dessa gente

Ele brada seu clarinete

Para todos nós seguir


Vamos todos seguir em frente

Para sempre para sempre

Nosso Mestre nos esperando

Muito alegre e contente.


Na espaçosa varanda da sua casa, saboreando delicioso suco de cupuaçu, Tufi nos contou a interessante história do recebimento deste hino exaltação. Na manhã do feriado de Natal, logo após o bailado comemorativo, ainda semi-fardado da função religiosa que se encerrara, ele se deslocara para a colônia de sua propriedade, em busca do leite que comercializava, fornecendo a clientes de Rio Branco.

Chegando a sua próspera fazenda, ainda no “fluido”[4] do Daime, sente no seu íntimo o retorno de forte miração. Estaciona então sob frondosa mangueira, para o benfazejo recolhimento. Dentro do automóvel que conduzia, assiste sobre a sua cabeça (num universo mítico, paralelo ao teto do carro) organizar-se uma banda de música para executar apoteótica canção. A música como que preenche todos os seus sentidos. Após maviosa introdução instrumental, um coro de vozes angelicais entoa:


Saudamos o grande dia

Que o nosso Pai nos deixou...


Músicos e cantores do Império Juramidã repetem a execução do belo hino, para memorização do aparelho humano que o recebia. Logo após, desfaz-se tal apresentação e, passado alguns minutos, a miração acaba.

Desde então, em datas festivas do CICLUJUR, este hino é cantado na “linha das diversões”, sendo a 11ª Diversão, logo após a execução bailada do “Zig zag”. No CEFLI este hino é cantado como a 10ª diversão, bailando-se o “Zig zag” logo a seguir - a ordem dos fatores não altera a excelente qualidade do produto.

O hino 40 – Caminho de Amor, foi recebido por Tufi no dia 27 de outubro de 2004, e é um hino de despedida:

40 – Caminho de Amor (Marcha)


Vou me embora vou me embora

Vou pra junto de Mamãe

Vou atender o chamado

Do Velho Juramidã


Meu Velho Juramidã

Me ensina com amor

Eu agradeço a meu Mestre

Pelo Vosso santo amor


A Rainha da Floresta

Ao Nosso Mestre ordenou

Para ele nos ensinar

O caminho do amor


Jesus Cristo Redentor

Pelo Vosso santo amor

Eu entrego o meu espírito

Com carinho e com amor


Minha Mãe, minha Rainha

Criadora e protetora

Guardai minha matéria

Nesta grandiosa Terra.


Tufi Amim, sofrendo de doença renal crônica, passava pelo período mais crítico da sua vida, com a saúde abalada e quase que “desenganado” pelos médicos. É transferido as pressas para hospital em São Paulo a espera de transplante de rim.

Ao receber este hino, o velho sargento do Exército de Juramidã imaginou que sua hora de deixar o mundo Terra tinha chegado, e ainda teve forças de instruir a sua esposa Herotildes a apresentar esta singela canção durante o seu velório.

O que Tufi não sabia é que o chamamento a se apresentar no mundo espiritual, naquele exato momento, não era para si... o chamado a viajar “pra junto de Mamãe” foi para a sua antiga professora e amiga: dona Percília Matos da Silva, a Percilinha, Percília de Pedro.

Percília Taio Ciris Midam Matos da Silva foi chamada pelo Velho Juramidã a viver no meio das flores, junto da Virgem Maria, Nossa Senhora da Glória neste exato dia: 27 de outubro de 2004. E para a felicidade de seus familiares e amigos, Tufi Adão Midam Rachid Amim aqui continua entre nós.

O amor incondicional da sua generosa esposa, a madrinha Heró, foi fundamental para a recuperação de seu querido cônjuge, pois foi ela a doadora do rim que restituiu a vida e saúde a seu amado marido.

Esta execução do hinário “Eu sou feliz” aconteceu no 3 de janeiro de 2008, na sede do CEFLI, Seringal Fortaleza, Capixaba-Acre, em homenagem ao 68º Aniversário do Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento. A família Rachid Amim foi responsável por puxar o significativo hinário – Rachid, Liliam, Leila, Daniela e o próprio dono do hinário. Este festejo é data maior do Encontro para o Novo Horizonte, que ali se realiza anualmente.


Antes do “Eu sou feliz” costuma-se cantar o hinário "Estrelinha do Céu", de Rubilam Chaves, um pequeno conjunto de singelos quatro hinos. A letra desses dois hinários encontra-se disponíveis para download no site http://www.luizmendes.org/hinarios.htm.

A gravação foi feita por Liliam Amim e a separação de faixas e programação ficou a cargo do Amigo Rodrigo Conti, ao qual enviamos nossos profundos agradecimentos.


VIVA O DONO DO HINÁRIO!!!



[1] “Turco” era o nome genérico que se dava a migrantes sírio-libaneses no norte-nordeste do Brasil.

[2] Filipenses 3:20.

[3] A “linha de Arroxim” já se apresentara anteriomente no hinário “O Ramalho”, do sr. Raimundo Gomes.

[4] Fluido do Daime. Termo que os daimistas usam para exemplificar uma situação do usuário do chá estar ainda sob efeito sutil da santa bebida.


Colaboração de nosso grande amigo Juarez Duarte Bomfim. Para extrair as mp3 do hinário "Eu Sou Feliz", baixe os arquivos compactados clicando em:

Em novas gravações, o hinário pode ser agora melhor apreciado:


14/07/08

"O Aprendiz" - caderno de Eduardo Bayer

Em 1988, na Colônia Santa Maria, Padrinho Wilson com seu secretário Eduardo Bayer

No dia 13 de novembro de 1987 cheguei na Colônia Cinco Mil, na época dirigida pelos padrinhos Wilson Carneiro e Francisco Corrente. Foi com eles que tomei o meu primeiro Daime, num aniversário na colônia do Sargento Hermínio na Estrada de Porto Acre, onde na época o tio Chiquinho fazia plantios do Projeto Daime Eterno. Foi com eles que recebi meus primeiros hinos, e com eles que fui nomeado celebrante de um casamento embora nem tivesse na época estrela ou fardamento oficial. Com eles apresentei meu hinário em várias oportunidades em ensaios dominicais da Cinco Mil, sendo que em 1989 tive a presença de passar meu caderno a limpo, em uma choupana no Seringal Anajás, aos padrinhos Sebastião e Alfredo.

Este meu caderno, intitulado "O Pascoal", já em 1992 passava de cem hinos, e após muito estudo e depuração veio a ser concluído em 1999, excluindo alguns e acrescentando outros novos. Dedicado a ser cantado na Páscoa, no Domingo da Ressurreição em 1990, na capela da Fazenda São Sebastião, na Boca do Mapiá, recebi a instrução para que a abertura fosse com o hino 143 do Padrinho Sebastião, o que me foi devidamente autorizado pela Madrinha Rita, de modo que nas poucas vezes que tive chance de ensaiá-lo no Mapiá, foi sempre aberto com esse hino: "Eu te dei uma casa que não falta ninguém...".

Em 1994 eu deixei o Cefluris, mas continuei abrindo o hinário com esse hino do Padrinho Sebastião, como em um aniversário em que pude cantá-lo na casa do Senhor Valsírio, filho do Mestre, com a ilustre presença de Dona Cecília Gomes, sua esposa, e de Daniel Serra, Heloísa Gomes e Altina Serra. E são muitas as boas lembranças, desdobradas até a versão final cantada na Páscoa de 2004 em Cusco com o meu amigo Antarki.

Um novo caderno de hinos foi aberto por mim em 2003, e intitulado "O Aprendiz". Coloco-o na categoria de "hinos percebidos" pois alguns deles só sobreviveram por terem sido memorizados através de gravações, o que contraria o preceito que me foi passado desde os primeiros tempos através dos ensinos dos padrinhos Wilson e Nonato: todo hino autêntico tem que ser puxado da memória por seu receptor, dentro da força do Daime, para comprovar sua efetividade. Como me ensinou a Madrinha Percília, lembrando o hino "Mensageiro", de Maria Damião, todos nós vamos um dia se apresentar ao Mestre e os trabalhos a ele mostrar, por isso precisamos estar preparados para essa apresentação e ter em nosso buquê apenas flores verdadeiras, pois as artificiais podem resultar num estorvo e num esforço inglório.

Apresento portanto aos amigos leitores deste blog esses meus hinos (agora em gravação melhorada com o violão de George Washington e os trinares de Francisquinha), com sua abertura sendo o hino "Arco de Flores" da Madrinha Chiquinha do CECLU (Porto Velho) e seu encerramento o hino "Curumim" do "Nova Redenção" da Francisquinha que esperamos em breve publicar. Ajunto aqui um recado público -

Irmão Daniel Prado está desde já convocado e vamos conseguir os meios pra vosmecê ser o produtor musical das gravações em Rio Branco dos hinários de "SÃO JOÃO E SEUS COMPANHEIROS", ou seja, o registro dos hinários da Colônia Cinco Mil ("Só quem sabe foi quem viu... os trabalhos do Padrinho na Colônia Cinco Mil", como lembra o hino do José Kleuber nosso mano véio) nos violões da casa com a prata fina de Clícia Cavalcante, Ricardo Moraes, Roberto Moraes, Adriano Grione, Dionísio Viegas e Samira, Atila Rufino, Madrinha Elza e Dona Raífe irmã da Daíde, junto do hinário da Madrinha Graça (este abre com a "Marcha da Bandeira" do Padrinho Alfredo). José Kleuber já está de volta e eu estive votando no Ricardo Moraes pra Associação de Moradores do Conjunto Universitário em Rio Branco (a chapa dele, Shalom, foi a que ganhou...). Vamos engrenar aí umas gravações em estúdio feitas em Rio Branco para nosso melhor aproveitamento e conhecimento, agindo também em prol da Fundação Sebastião Mota de Melo, só depende da cooperação e interesse das irmandades pra esse barco navegar.

Para baixar as wma e o caderno de texto desses hinos, cliquem em:

13/05/08

"Firmado na Luz" de Sonia Palhares (recarregado)

Ascenção de Santa Maria Madalena - José Antolinez (1635-1675)

Sonia Maria Palhares de Alverga nasceu no Rio de Janeiro, no dia 04 de outubro de 1949, dia de São Francisco de Assis. É casada com Alex Polari de Alverga com quem tem três filhos: Thiago, Paula e Davi, além de Joana, sua filha mais velha, fruto da sua primeira união. É avó do João, que tem agora quase dois anos, filho de Thiago e de Ana.

Sonia é Bacharel em Literatura Brasileira pela UFRJ, Licenciada pela Faculdade de Educação da UFRJ e Pós-Graduada em Teoria da Literatura pela PUC-Rio.


Sonia conheceu o Santo Daime em junho de 1982. Sentia-se incompleta na vida, mas não tinha ligação com nenhuma tradição ou prática espiritual. Nesta época foi à Colônia 5000 – nos arredores de Rio Branco - fazer um vídeo sobre o Daime, que já despertava interesse para além das fronteiras da região norte. O Feminino Sagrado, a feminilidade, a mulher, o ventre, a terra, a fertilidade, todos estes mistérios que envolvem o tema se apresentaram a ela na sua primeira experiência com a bebida:

“Quando entrei na igreja senti uma emoção em ver que ali estava tudo que eu vinha buscando, naquela gente simples. Quando a força do Daime chegou, me vi como nunca - eu estava em cima do planeta Terra. Essa era a consciência. Senti a vida na Terra, útero da mulher, da Mãe Divina. Do gerado, do gestado, do feminino".

Em dezembro do mesmo ano, Alex foi ao Rio do Ouro, onde o Padrinho morava nesta época, e recebeu a missão de começar um núcleo em Visconde de Mauá. Começaram então a fazer os trabalhos na garagem da própria casa, lá mesmo em Mauá. Em 1984, a igreja ficou pronta e em dezembro de 1985 a família toda se mudou para uma casa mais próxima à sede e aí começou a comunidade Céu da Montanha. Nesta época moravam lá mais ou menos 70 pessoas. Havia escola, uma cozinha comunitária, um centro de pesquisa em fitoterapia, oficina de tecelagem, e um grupo de mulheres muito unidas.

No final da década, em 1989, Alex visitava o Mapiá quando o Padrinho Sebastião chamou a ele e sua família para irem morar lá. O convite foi aceito, afinal já tinham com ele laços de confiança, afeto e amizade.

“Nós havíamos acabado de construir a nossa casa em Mauá, nem pensávamos nisso, mas respeitamos o chamado e começamos a preparação: ele mandou a gente vir duas vezes com toda a família e na terceira, de vez. Em maio de 1993, finalmente fizemos a mudança. Uma decisão difícil, os filhos adolescentes, entre 9 anos e 20, mas conseguimos boa adaptação. O Padrinho Sebastião morou em nossa casa em Mauá por um mês, isso em 1987. Foi uma experiência maravilhosa. Ele era uma pessoa muito humilde e verdadeira, que conquistava a gente por sua simplicidade e amizade. Foi esse sentimento que nos deu coragem de largar tudo e mudar para o Mapiá”.

Sua ligação com Santa Madalena começou quando leu a “História de uma alma”, um manuscrito de Santa Teresinha que além de ser uma autobiografia, tratava do amor de Santa Madalena ao “Esposo Divino”. Depois desta leitura, num trabalho de estrela em 1986, recebeu o hino “As Forças Redentoras”, consagrando sua ligação ao amor devocional de Madalena ao Cristo. Passado algum tempo, o Padrinho Alfredo ofereceu a data de 22 de julho, dia de Santa Madalena, para que cantasse seu hinário, o que ela considera que: “foi mais uma forma dele me ajudar, pois eu estava num momento difícil do meu trabalho espiritual e eu sou muito grata a ele por isso”.

22-Forças Redentoras
(Madrinha Cristina)

Viva Deus Onipotente
Via essa Santa Doutrina
Viva Santa Madalena
Junto com a Santa Maria

Nossa Santa Madalena
Era santa pecadora
Junto com a Santa Maria
São as forças redentoras

Pra chegar a esse Poder
É preciso estar puro
Pra dispor do aparelho
Os espíritos de cura

Eu peço aos meus irmãos
Pra nessa casa respeitar
Os espíritos femininos
Que chegam pra se salvar

Pecadoras arrependidas
Podem já se libertar
Que aos pés de Jesus Cristo
Ninguém pode atormentar

Há algum tempo Sonia vem acompanhando Alex em algumas viagens ao exterior e nos dois últimos foram aos Estados Unidos e ao Canadá, onde achou emocionante ver o esforço das pessoas em seguir a Doutrina, com todas as dificuldades, principalmente a da diferença da língua.

Seu caderno de hinário - chamado “Firmado na Luz” – é composto de uma primeira parte com 39 hinos; a partir daí abre-se “A Estrela do Oriente” com mais 17 hinos e há ainda uma parte final, com os hinos oferecidos por ela a partir de 1987, atualmente são 11 hinos. Além da exaltação ao Feminino Sagrado, seus hinos nos trazem o entendimento do poder da conversão ao Amor Divinal que vem senão pelo Cristo e nos lembram da importância da Firmeza e da Fé para seguir nesta batalha aqui na Terra e no Astral.

Sua mensagem para toda a irmandade é:

“Ter um coração simples e seguir a Doutrina sem esmorecer, pois o tempo está forte em todo o mundo e só o amor crístico - que o Daime traz- pode nos ligar com nosso verdadeiro eu”.


O hinário "Firmado na Luz", (título que veio do nome do hino 134 a ela presenteado no "O Cruzeirinho" do Padrinho Alfredo Gregório de Mello), é cantado todo 22 de julho no Céu do Mapiá, dia de Santa Maria Madalena. Para realizar o download deste Hinário gravado em estúdio, com a participação, entre outros, da Joana e da Tininha Cotrim, numa colaboração preciosa de Caio Lemos, clique em:
Recarregado agora com as mp3 dos 2 últimos hinos da parte intitulada “Oferecidos”, respectivamente os números "10-Proteção" e "11-Bem Precioso". Enviados pela irmã Daniella Villalta, colaboradora e co-autora deste nosso post. Agradecimentos carinhosos e especiais a Sonia Palhares!...

27/01/08

"O Convite", da Madrinha Júlia Gregório


Júlia Gregório da Silva nasceu em Açu, no Rio Grande do Norte, em 29 de dezembro de 1933. É a irmã mais nova da Madrinha Rita Gregório de Melo, e mãe de seis filhos: Maria de Fátima (Dodô), João Batista, João Evangelista (Vanja), Maria José, Antonio José e Rita Maria.

Com a idade de oito anos partiu para o Acre com a família. Viveu durante sete anos no Juruá, Amazonas, de onde seguiu para Rio Branco, no Acre, sendo uma das primeiras moradoras da Colônia 5.000. Iniciou-se na Doutrina do Santo Daime após a passagem de seu marido, Francisco Gregório Bezerra.

Hoje a Madrinha Júlia mora na Vila Céu do Mapiá. Herdou de outra irmã, Tetê, já falecida, o gosto de ser zeladora e responsável pela Oração e pelos trabalhos da Igreja de um modo geral. Batalhadora incansável da pontualidade e da disciplina nos trabalhos espirituais, é sempre a primeira a chegar e abrir os trabalhos nas datas oficiais. É responsável pela padronização e acatamento das normas rituais da Doutrina. Viaja pelo mundo levando a todo Cefluris seu exemplo de humildade e disciplina, sempre trabalhando na Verdade e no Amor da mensagem do Padrinho Sebastião Mota. Seu hinário é um convite permanente à entrega, à confiança e à fé, requisitos indispensáveis à espiritualidade:

"O barco chegou
E eu vou viajar
Feliz é aquele
Que me acompanhar

Minha vida é de Deus
E eu vou me firmar
Segure o balanço
E vamos balançar

Meu Pai me chamou
E eu aqui estou
Segure o balanço
Que somos vencedores

Dou viva ao Sol
Dou viva à Lua
À Estrela do Oriente
Que é o meu Jesus

Ele vem balançando
E vai balançar
Os que estiverem firmes
Estes vão ficar".

A presente gravação foi realizada pelo Padrinho José Ricardo, da Igreja Céu do Dedo de Deus, em Teresópolis - Rio de Janeiro, e inclui os hinos ofertados à dona do hinário. Para obter o download das mp3, clique em:

Colaboração: Jaime Wanner e Patrícia Rodrigues.

02/12/07

"A Instrução", de Lúcio Mortimer


Lúcio Otávio Mortimer foi um dos primeiros mochileiros e hippies que conheceram o Daime e resolveram morar com o Padrinho no tempo da Colônia Cinco Mil, ainda na década de 70. Chegou à Colônia Cinco Mil, em 1975, pouco antes da ida do Padrinho Sebastião ao Rio do Ouro. Era considerado o Padre da comunidade, porque, tendo sido seminarista, era ele quem celebrava os casamentos e batizava as crianças no Cefluris, em substituição ao antigo secretário (que se tornou evangélico), o senhor Reinaldo Bento. Solteiro permaneceu ele por muito tempo, até o encontro com a Maria Eugênia, fardada do Céu da Montanha, com quem já no final da vida se uniu em matrimônio na igreja Flor de Jagube. Lúcio fez parte do grupo pioneiro do Céu do Mapiá, e durante muitos anos foi o responsável pela venda da borracha e a compra da feira que abastecia a comunidade. Muito ativo e participativo na comunidade mapiense, criou a Rádio Jagube, foi membro do Conselho Doutrinário e presidente da Associação dos Moradores da Vila Céu do Mapiá, em dois mandatos. Lúcio fez sua passagem em 11 de junho de 2002, deixando a todos muitas saudades.

Edward MacRae, no ensaio “Santo Daime e Santa Maria – usos religiosos de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas”, em “O uso ritual das plantas de poder”, conta que, logo quando de sua chegada à Cinco Mil em 1975, “(...) Lúcio Mortimer, um dos jovens usuários de cannabis, foi tomado de uma necessidade irrefreável de confessar o seu segredo, tendo até de sair do salão ‘para respirar’. De acordo com seu próprio relato, no dia seguinte procurou o Padrinho Sebastião e contou-lhe tudo, mostrando-lhe também um caixote onde havia mudas de Cannabis plantadas. Mas este, longe de se zangar, disse-lhe ter tido, algum tempo antes, um sonho no qual um estranho cavaleiro, cavalgando uma montaria branca e usando uma capa preta, anunciara que brevemente ele iria mudar para outra linha espiritual. Quando Padrinho Sebastião perguntou-lhe ‘Que linha?’, a resposta foi que ele descobriria por si mesmo. Padrinho Sebastião continuou a caminhar, chegando a um roçado que era cuidado por um homem moreno vestido de branco, o qual lhe entregou um galho de uma planta, dizendo ‘esta é para curar’. Padrinho Sebastião disse que ao receber a oferta acordou, mas que ao ver a plantinha que Lúcio lhe mostrava, lembrou do sonho e ficara com vontade de cultivá-la para fazer a comparação (...) Como entre os hippies havia três chilenos que costumavam chamar a planta de marihuana, e provavelmente, segundo os costumes dos falantes de espanhol, mais simplesmente de ‘Maria’, esta passou a ser conhecida por Santa Maria” e, com o correr do tempo, a parecer ter papel específico na doutrina daimista, já que o tinha na dissidência, e com destaque, à busca de legitimação do seu uso ritual."

Havendo sido testemunha histórica dos primórdios do Cefluris, Lúcio se tornou um referencial importante para os novos irmãos que começaram a acorrer de outras partes do Brasil para o culto do Santo Daime no Acre, propiciando através de sua formação intelectual clássica uma necessária interface entre o "modus vivendi" acreano e o "modus vivendi" dos "sulistas", onde explicava a uns e aos outros a melhor conduta para esse contato intercultural. Nesse sentido, sempre manifestou apoio à proposta de ritualização da Santa-Maria, mesmo quando o próprio Padrinho Sebastião categorizou isso como utopia social e manifestou abrir mão dessa bandeira devido à falta de obediência de seus seguidores em relação ao procedimento por ele idealizado quanto ao uso da planta. Citando depoimentos de Mortimer em "A construção de fronteiras religiosas através do consumo de um psicoativo: as religiões da ayahuasca e o tema das drogas", Sandra Lúcia Goulart explica o uso idealizado da chamada Santa-Maria enquanto acréscimo à Doutrina do Daime:

"Concebida como uma planta divina, ela foi associada à própria Virgem cristã, passando a ser designada, pelos adeptos deste grupo, como Santa Maria. Portanto, a adoção desta nova substância no conjunto ritual das igrejas do CEFLURIS, trouxe também importantes inovações à cosmologia original da linha daimista. Assim, nesta última o chá do daime é relacionado à energia espiritual de Cristo, enquanto nos grupos do CEFLURIS a associação Daime-Cristo combina-se à associação, quase tão relevante quanto a primeira, Erva de Santa Maria-Virgem Maria. (...) Assim, embora um grupo possa considerar-se mais autêntico, mais ordenado ou mais evoluído porque não utiliza a Cannabis sativa, outro grupo que fez ou defende o uso da Cannabis pode entender que suas crenças e práticas rituais são mais evoluídas exatamente devido a este uso. Enquanto alguns grupos procuram evitar ser associados a um contexto de uso de drogas profanas e ilícitas ao recusarem o consumo da Cannabis sativa, outros tentam eliminar esta associação ao sacralizarem esta planta. No CEFLURIS, a Cannabis sativa passou a ser Santa Maria e o usuário desta substância não era um “maconheiro” e muito menos um “drogado”, mas um “mariano”, em referência à ordem católica da Virgem Maria. De qualquer modo, num caso e no outro, o que percebemos é que o consumo (ou não) da Cannabis sativa transforma-se numa espécie de mecanismo capaz de reelaborar crenças, concepções doutrinárias e práticas rituais. "

Lúcio supervisionou muitas das igrejas e núcleos do Daime surgidos em outras partes do Brasil, no decorrer dos anos 80 e especialmente depois do falecimento do Padrinho Sebastião de quem sempre fora companheiro para toda obra. Tardiamente é que Lúcio Mortimer veio a lançar dois livros sobre a obra de Sebastião Mota de Melo e do Mestre Irineu: "Bença, Padrinho" (São Paulo, Edição: Céu de Maria, 2000), e "Nosso Senhor Aparecido na Floresta", (São Paulo, Edição:Céu de Maria, 2001). Quando da criação do IDA-Cefluris, Lúcio Mortimer ao tornar-se o primeiro presidente da instituição declarou os princípios éticos que herdou do Padrinho Mota:

"Vivendo harmoniosamente se pode usufruir o que a floresta oferece à sobrevivência. Pode-se derrubar uma árvore e preservar todo o ecossistema. Esta deve ser a nossa realidade: saber conviver com a riqueza que Deus nos oferece. Nunca ser uma pessoa nociva, gananciosa, destruidora. "Bem-aventurado os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus. Bem aventurados os mansos porque herdarão a Terra". Assim disse Jesus. Confio nesta irmandade e vejo que tem muita gente que merece este título. São os que buscam viver na grande harmonia universal, não perseguindo nem prejudicando a seus semelhantes, não poluindo nem maltratando a natureza."

Segundo Maria Eugênia, Lúcio em seus últimos momentos apresentava uma aura santificada - pedia que ela o olhasse bem, que o tocassse, pois ali diante dela estava alguém que tinha alcançado o triunfo maior, nome do seu hino de despedida:

TRIUNFO MAIOR

Posso cantar alegrias da vida
A certeza de ser um filho estimado
Agradeço a São João, meu mestre querido
Que bom ter ouvido o seu chamado

Sigo contente, Jesus vai comigo
Do meu coração é o melhor amigo
Sou filho da terra, nela pequei
Na Santa doutrina me iluminei

Todo louvor na Soberania
Que a nossa Rainha é quem nos guia
Triunfo maior vai no coração
De quem quer ouvir e seguir a Instrução

O hinário "A Instrução", de Lúcio Mortimer (título que veio do nome do hino a ele presenteado na "Nova Jerusalém" do Padrinho), costumava abrir os trabalhos da Festa de São Miguel, antecedendo o "Caboclo Guerreiro". Para se obter o download deste hinário, numa colaboração de Paula Gasparini, clique em:

PARA ASSISTIR: Vila Mapiá - Série de 12 videos streams contendo cenas e depoimentos de Lúcio Mortimer sobre a Doutrina do Santo Daime e ao Céu do Mapiá. Imagens: Oswaldo Carvalho / Edição: Pedro Marques

28/11/07

"Lua Branca" (recarregado)

Madrinha Rita na varanda de sua casa na Vila Céu do Mapiá

Em junho de 2005, por ocasião dos festejos dos 80 anos da Madrinha Rita, viúva do Padrinho Sebastião Mota, foi lançada a Revista Virtual "Arca da União" com a devida homenagem realizada por seu conterrâneo potiguar Francisco Nóbrega:

"(...) Madrinha Rita Gregório nasceu em 25 de junho de 1925, filha de Idalino Gregório e Maria Francisca das Chagas, num sítio da Várzea do Açu, no Estado do Rio Grande do Norte. Lá também nasceram os seus irmãos Francisco Gregório, Joana, Manuel, Luísa, Teresa, Júlia e João Batista.

Entre os anos 20 e 40 do séc.XX, esses Antunes Gregório moravam numa propriedade dos Camilos, donos da famosa Fazenda Alemão na Várzea do Açu. Igual a grande maioria dos nordestinos desse tempo, eles não tinham terra própria, nem gado, nem destaque de vaqueiro.
Como padrinhos da primogênita Rita, os pais tomam o casal Julião Camilo e esposa. Já o filho Manuel tomou como padrinho Manuelzinho Montenegro, uma das maiores lideranças.

A Várzea do Açu é hoje muito diferente do tempo em que nasceu e cresceu a família de Rita Gregório, na primeira metade do séc. XX. Naquele tempo não havia a barragem no Rio Açu, uma das maiores do Nordeste brasileiro, inaugurada em 1983, no último governo militar, onde hoje se desenvolve a agroindústria frutífera de exportação, a indústria cerâmica (telha e tijolo), ambas com grande impacto ambiental e menos no desenvolvimento social. Além disso, assim como a Várzea do Açu, o território norte-rio-grandense se tornou uma das maiores bases de extração petrolífera continental da Petrobrás.


Mas o Rio Açu, antes da inauguração da barragem, não era só bonança de fertilidade de solo. Provocava enchentes, destruições, inundando lavouras, afugentando as populações ribeirinhas, rebanhos, soterrando povoados. Em meados dos anos 20, quando nasceu Rita Gregório, a pecuária bovina ainda tinha forte presença naquela várzea. Os ricos fazendeiros e vaqueiros eram os personagens varzeanos mais destacados.
A carnaúba (Copernica cerifera, Mart.) também tinha grande importância econômica nesse tempo. Palmeira nativa do Nordeste, chamada a “árvore da vida”, sua cera tinha largo uso industrial, a palha e talo serviam para fazer a casa, o mobiliário e utensílios da casa do sertanejo. Ainda serve para fazer esteira, bolsa, chapéu, urupema, vassoura e outros utensílios. A sua madeira serve à construção civil, de móveis, currais, cercados, pontes, tubos e bomba d’água. Seu Idalino Gregório arrendava o carnaubal miúdo. Saía cortando, estendendo a palha para secar, tirava o pó, fazia a cera. Os seus filhos e filhas, inclusive a Rita, também ajudavam nesse serviço de coleta. Atualmente, sem mais prestígio econômico, a carnaubeira está sendo ameaçada de desmatamento total na Várzea do Açu, para dar lugar as novas frentes agrícolas, principalmente a fruticultura de exportação.

Se bem chovia, plantavam-se roçados de feijão, milho, jerimum, melancia, a safra dividida, de “meia”, com o patrão, os Camilos. Seu Idalino colhia os seus roçados e ainda trabalhava “alugado” apanhando a safra nos roçado dos vizinhos. Safras de castanha de caju, de algodão, no corte da palha de carnaúba e até na salina na salina, onde o seu filho Manuel trabalhou de cuca (cozinheiro) na salina. Eles também pescavam nas camboas e no mar, e caçavam com cachorro pelos tabuleiros caatinga adentro a pegarem preá, punaré, tejo, peba, marical.


Nos primeiros anos da década de 40, os últimos anos que a família de seu Idalino e Maria Francisca das Chagas viveu na Várzea do Açu, foram anos de secas brabas, o que mais motivou a migração nordestina para o “Amazona”.
Na década de 30 aconteceram alguns fatos políticos marcantes no Rio Grande do Norte e no Brasil, dos quais certamente o povo de seu Idalino Antunes Gregório e dona Maria Francisca das Chagas, os pais da mocinha Rita Gregório, ouviram falar muito: o assassinato do presidente (governador) paraibano João Pessoa, a ascensão de Getúlio Vargas, o movimento comunista da tomada de Natal, a morte de Lampião e a 2ª Grande Guerra Mundial. Com a guerra houve a perda dos seringais da Malásia, que supriam de borracha os aliados, e a única fonte de abastecimento situava-se na Amazônia. Tais fatos iriam mudar a vida desses Gregórios para sempre, e a de dezenas de milhares de nordestinos, que iriam para a Amazônia, convocados para a “batalha da borracha”.

Pelos sertões afora só se ouvia falar de quanto se enricava na borracha.
De abril a agosto de 1943, mais de 4 mil nordestinos entraram em Manaus. Muitos não iam para o interior, desencantados no fracasso da “batalha da borracha”, ficavam ali mesmo iniciando o processo de favelização da capital amazonense, e popularizando o imigrante nordestino chamado “arigó”, que a crônica policial mais ajudou a espalhar a sua má fama. Em 1944 apareceu um agenciador de imigrantes na Várzea do Açu, onde morava a jovem Rita Gregório, seus pais e irmãos. O homem ganhava por cabeça convocando o povo para ir para a borracha. Conta-se que a jovem Rita, então com dezenove anos de idade, era uma alegria só com a decisão familiar de ir para a Amazônia: “Vamos s’embora minha gente, lá é que é a terra para se ganhar dinheiro”. Partiram do sítio Saco, num caminhão tipo pau-de-arara, às onze horas do dia 28 de abril de 1944. É natural que tenha havido lágrima de despedida, mas é certo que houve maior euforia dessa família de seu Idalino Gregório amontoada em bancos atravessados à carroceria do caminhão, coberto de lona, chamado pau-de-arara.

A viagem marítima de Fortaleza a Manaus, previa-se durar quatro dias. O navio a vapor singrou as águas atlânticas em procura de Manaus, apinhado de imigrantes “soldados da borracha”, muitos deles levando suas famílias. O navio ia sendo comboiado por outros militares, pois havia o perigo de torpedeamento nazista.
Depois de Belém, o navio seguiu viagem no grande Amazonas. Quando desembarcaram em Manaus, fazia três dias que tinha saído um navio “gaiola” para Rio Branco, no Acre, para onde seu Idalino pensara ir. Um irmão menor de Rita, chamado João Batista, enfermo, fraco, debilitado da viagem de semanas, não resiste, morrendo ali mesmo em Manaus. A mãe Maria Francisca das Chagas, aflita, depois que sepultou o filho disse que não ficaria mais um dia sequer na cidade. Foi então que chegou um seringalista do Alto Juruá, atrás de cinco famílias para levar para lá. Os filhos de seu Idalino combinaram com o velho, e transferiram o projeto de viagem, que era de ir para Rio Branco, para o Rio Juruá.

Saíram de Manaus em julho e chegaram em agosto de 1944 no destino final da viagem: Eirunepé. O jovem Sebastião Mota de Melo morava num seringal vizinho ao local onde a família de seu Idalino se instalou. Quando o rapaz viu aquela imigrante nordestina de rosto redondo e alegre, não teve dúvida. Era ela a moça para se casar que ele tinha visto em sonho. Sebastião e Rita casaram-se no final dos anos 40.

No período de sete anos que essa família viveu no Juruá, nasceram os primeiros filhos do casal: Waldete, o primogênito, e Walfredo (hoje o Padrinho Alfredo, sucessor de seu pai no comando do CEFLURIS). Em 1951, o velho Idalino mudou-se para Rio Branco, Acre, com a esposa e filhos, entre os quais Rita e seu esposo Sebastião com os filhos (além dos dois mais velhos, tiveram também Maria das Neves, Iracema, Pedro, Ivanildo, Isabel, José, Raimunda Nonata e Marlene). Estabelecendo-se na Colônia Santa Maria, parte da chamada “Colônia Cinco Mil”, próxima a Estrada de Porto Acre, viviam todos como vizinhos, dedicados à lavoura e à pecuária, mas também trabalhando espiritualmente.


Em meados dos anos 60, Sebastião Mota de Mello conheceu o Santo Daime sendo curado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra. Começou então a sua iniciação e de sua família na Doutrina do Santo Daime, e Sebastião Mota tornou-se “feitor” (preparador da bebida), dando seqüência a seus trabalhos de cura: em 1974, fundou-se o CEFLURIS sob a liderança natural do Padrinho Sebastião, e desse modo os Gregório de Mello vieram a constituir o verdadeiro clã daimista que temos hoje. (...)"


O hinário da Madrinha Rita foi intitulado "Lua Branca" por conta de um dos seus mais belos hinos, e esse bonito título fez jus à simbiose efetivada entre a mulher Madrinha, sua figura de Grande Mãe e Matriarca, representante da Rainha da Floresta à frente da Divisão Cefluris, e a Lua Branca que sinalizou a presença divina da professora do Mestre Irineu no advento da Doutrina. Conta-se que a Madrinha, quando era mais conhecida como "Dona Rita", nos tempos da Cinco Mil, sempre foi tão humilde e tinha uma presença tão discreta ao lado do Padrinho Sebastião que poucos se davam conta de seu valor espiritual. Foi a partir da criação dos núcleos daimistas no sudeste brasileiro que sua pessoa começou a ser mais reverenciada, e quando o "Céu da Montanha", em Visconde de Mauá, Rio de Janeiro, a nomeou como patrona, já era conhecida por todos como a doce "Madrinha Rita". Após o falecimento de seu amado esposo, ela assumiu a responsabilidade de representar o pensamento do Padrinho, passou a ter um cargo honorário na presidência do Cefluris, e certamente apenas com sua generosa presença ajudou a fortalecer o seguimento do Centro sob o comando de seus filhos os padrinhos Alfredo e Waldete, reinvidicando sempre uma maior união da irmandade.

Seu caderno de hinário resume-se a 25 hinos por ela recebidos, todos de muita força, o último dos quais nos primeiros tempos do Mapiá. Além destes, vários hinos a ela dedicados por seus admiradores compõem um adendo que nos proporciona uma bela visão da trajetória desse Povo de Juramidam liderado por Sebastião Mota Brasil afora. Ela não tem mais querido incluir novos presentes neste caderno para não criar um trabalho a mais para as cantoras do Centro, e como no Dia das Mães seu hinário é cantado oficialmente no Cefluris seguido dos hinários de sua irmã Júlia e de sua cunhada Cristina, estes "presentes da Madrinha" se encontram pouco conhecidos ou "cultivados".

Tivemos problemas com alguns de nossos links, devido ao host gratuito bloquear arquivos muito requisitados, e contamos com a paciência de nossos leitores para que esses links obsoletos venham a ser repostos. Republicamos este post para veicular agora a gravação do "Lua Branca" realizada na Rádio Jagube a 20 de agosto de 2006, com o Padrinho Alfredo e equipe (Rutilene, Gecila, Maria Alice, Roberval, Francisco e Irineu): uma gentileza de Paula Gasparini. Anexamos os hinos presenteados, numerando-os na seqüência do "Lua Branca" pois eventualmente podem ser cantados assim conjuntamente, mas ainda nos faltam no momento letras e cifras destes, e nestes arquivos indicamos apenas cada respectiva autoria. A gravação dos presentes foi realizada no salão da Igreja-Matriz do Céu do Mapiá, havendo nos sido enviada pelo amigo Jaime Wanner.

Lua Branca - Madrinha Rita (hinos do 01 ao 13)
Lua Branca - Madrinha Rita (hinos do 14 ao 25)
Presentes da Madrinha Rita (hinos do 26 ao 50)
Presentes da Madrinha Rita (hinos do 51 ao 68)

14/11/07

"Os Chamados"

"Eu não me envergonho, pelo contrário, muito me honro de dizer aqui, na presença de qualquer autoridade, na presença de qualquer público, que eu devo ao Mestre Irineu, aos seus ensinamentos, a esta casa, tudo, até a própria existência. A razão de hoje eu ainda viver, eu devo a ele. Tenho certeza absoluta que se ele não tivesse tido compaixão e não tivesse me encaminhado para encontrar uma coisa dessa, eu já teria morrido há muito tempo. (...) [O Mestre era] Também uma pessoa com uma facilidade extrema de comunicação, de fazer amizade: porque era muito educado, o nosso Mestre... Com a mesma atenção que ele dispensava à mais alta autoridade, era com essa mesma atenção que ele tratava o mais humilde também. O Mestre era formado assim dessa natureza. E conversava muito. Às vezes ele estava até assim um tanto fechado, mas ele só queria que alguém por ali contasse qualquer assunto, que ele tomava conta e conversava tardes inteiras. Às vezes a gente se esquecia até de que tinha casa, e quando se lembrava: "Valha-me Deus, tenho que ir para casa." Já horas tantas da noite, ouvindo o Mestre conversar. Ele conversava muito.

Quanto ao aperfeiçoamento propriamente dito dessa doutrina, este se deve única e exclusivamente a ele. Ele pegou essa bebida, como a gente já falou, lá na sua origem, tida como uma coisa grosseira, de qualquer jeito, sabe-se lá como, e tinha até a forma como eles usavam. Aí foi quando ele prometeu que se fosse uma coisa boa ele traria para o Brasil. Trouxe e foi aperfeiçoar, até dar esta denominação: Santo Daime, ou Daime simplesmente. Foi o nosso Mestre quem batizou. O cipó, que tinha diversas denominações, ele batizou como jagube; a folha, que também recebe outras denominações, ele batizou como rainha – que coisa bela! E finalmente foi o responsável assim diretamente para que isso se aperfeiçoasse ao ponto de justamente chegar no que estamos chegando, até cheios de gratidão por realmente ele ter deixado nas nossas mãos um trabalho, uma bebida que tem respaldo nas leis dos homens, desde quando ela foi liberada.

E apesar da gente ainda sofrer muita discriminação – e isso talvez não vá ter a condição de faltar nunca, essa discriminação, até pela incredulidade do mundo profano – a gente já não tem tanto subterfúgio. Eu não sei se mais gente está até procurando esconder, eu não tenho em particular o que esconder. "Você toma Daime?" "Tomo." "Mas rapaz, e finalmente qual é o sentido? "Rapaz, é tão difícil de explicar, mas é tão difícil que por mais que eu queira explicar, no final tu não vai acreditar mesmo... Assim tu tem que tomar." É a saída, não tem outra saída a não ser assim. "Por mais que eu vá tentar dar uma explicação, não tendo nem essa explicação diante de tanto mistério, mas por mais que eu tente, você não vai acreditar. Ao contrário você pode até ir desdenhar. Então vai, rapaz, está lá. Convidar ninguém convida. Não vai esperar que você vai ser convidado. Agora, se procurar tem, vai lá, rapaz, vai lá." É como a gente se sai, não é? Porque o Mestre é que se portava assim dessa maneira. Alguém podia morar há cem, duzentos anos com outra pessoa, dividindo a mesma cama, comendo no mesmo prato e até com a mesma colher, mas caducava, ficava velho e não chegava ao ponto de convidá-la. Convidam-se sim para uma determinada festa seus amigos, seus parentes etc. e tal, mas apenas para participar das festividades. Na hora de ingerir aí é livre e espontâneo."

Esse depoimento do Padrinho Luiz Mendes, disponível no site do Ciclumig, ilustra bem a sua filosofia de vida e a postura fidedigna que se espera dos verdadeiros discípulos do Mestre Irineu. Recomendamos a visita também ao site do Cefli, onde os leitores poderão conhecer um pouco mais sobre a vida e obra do Mestre-Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento.

Os hinos que temos agora a felicidade de poder disponibilizar aqui compõem o caderno de Trabalho de Cura do Padrinho Luiz Mendes, intitulado "Os Chamados". Assim como o Padrinho Sebastião Mota tinha seu caderno próprio de hinos de cura e o Padrinho Wilson Carneiro o seu, o Padrinho Luiz Mendes desde os tempos em que presidia o Ciclu no bairro Irineu Serra possuía um caderno próprio, ao qual com o tempo acrescentou outros hinos até chegar a este formato. O trabalho de cura "Os Chamados" faz inclusive parte da programação do "Encontro para o Novo Horizonte" que anualmente é realizado na virada do ano no Seringal Fortaleza, em Vila Capixaba - Acre, sede do Cefli, aproveitando a ocasião do Ano Novo e da festa de aniversário do Padrinho Luiz que, sendo a 4 de janeiro, antecede o festejo dos Santos Reis.

A respeito pode-se ler o artigo "Ciberativismo Transnacional: o Santo Daime e a Preservação da Amazônia", de Débora de Carvalho Pereira Gabrich, e também "Luiz Mendes: Porta-Voz do Mestre e Embaixador da União", de Marcelo Bolshaw Gomes, publicados na revista A Arca da União. O Cefli promete em breve estar disponibilizando a programação do próximo Encontro, e agradecemos aos irmãos de Santa Luzia (MG) a possibilidade de veicularmos essas gravações mp3 cujos originais foram registrados em estúdio, e fazem parte dos cds à venda no site do Ciclumig, como os hinários "O Centenário" e "Novo Horizonte" do Padrinho Luiz Mendes.


Para obter o download dos arquivos zip contendo as mp3 deste trabalho de cura, cliquem em:


Colaboração: Marcus Mantovanelli

07/11/07

Hinário da Irmã Isabela

Eu estava lá no Céu do Mar, quando fizeram um bolo pro Padrinho Paulo Roberto e pra Madrinha Nonata, na véspera de sua viagem onde pela primeira vez levavam o Daime para os Estados Unidos da América, e quem assumiu o comando da igreja era o casal Paulo e Isabela Coutinho. Também presenciei o momento histórico quando da morte de Chico Mendes os ativistas foram se manifestar diante da Assembléia na Cinelândia, e Paulo e Isabela puxaram uns hinos da floresta representando ali no Rio de Janeiro a Doutrina do Santo Daime, nós estávamos com o Sidney Harz e o Danilo, de farda azul, e foi bonito.

Era muito tocante e bonito o engajamento também ecológico dos primeiros irmãos que se somaram ali na Estrada das Canoas, pois isso ressaltava muito os aspectos fraternos inerentes à Doutrina cristã do Mestre Irineu. Eu passei um tempo muito bom lá nessa época de 1988 e por isso sempre fiquei considerando o Céu do Mar como "meu quartel" no Rio. Mas cada irmão tomou seu caminho, chegando-se mais pras montanhas do Rio de Janeiro, como no Céu do Dedo de Deus, onde a Madrinha Júlia tem uma base forte e também a Madrinha Isabela.

O hinário da Madrinha Isabela faz parte da "caixinha de música" de todas as madrinhas do Mapiá, de quem é filha estimosa e muito amada. Para obter o download das mp3 , clique em:


O depoimento é do Bayer e a colaboração é de Caio Lemos & Paula Gasparini, sempre sempre esmerosos com nossos Cadernos.

06/11/07

Madrinha Cristina e "A Mensagem"

Cristina Raulino da Silva, a Madrinha Cristina, era casada com o Padrinho Manoel Gregório (Nel), irmão da Madrinha Rita, com quem teve catorze filhos, e foi uma das primeiras a enxergar a estatura espiritual de Sebastião Mota de Melo, seu concunhado, que lhe curou de uma grave doença e lhe desenvolveu mediunicamente no trabalho espírita de mesa que realizava antes mesmo de conhecer o Santo Daime. Nascida em Rio Branco, Acre, a 9 de janeiro de 1938, essa irmã, que foi uma das primeiras seguidoras do Padrinho Sebastião, décadas depois foi nomeada Madrinha do Céu da Santa Maria, na Holanda, que em sua homenagem foi batizado como Ceflucristi, "Centro da Fluente Luz Universal Cristina Raulino da Silva". Fez sua passagem no dia 26 de janeiro de 2005, deixando muita saudades para todos os seus familiares e afilhados.

Lúcio Mortimer conta em "Bença Padrinho - História de Um Homem da Floresta", da participação fundamental do casal Cristina e Nel no surgimento da futura Colônia Santa Maria, primeira sede do Cefluris:

"A localidade que ocupavam era conhecida por "Cinco Mil", constituída por colônias de doze e meio hectares, desmembrados do "Seringal Empresa". Como já foi dito, o baixo custo da borracha determinara o fim dos seringais, principalmente dos que rodeavam Rio Branco. A atividade dos trabalhadores se voltara para a terra. Agora todos queriam derrubar um pedaço da mata para fazer lavoura, criar gado e ter produtos agrícolas negociáveis na cidade. O exótico nome "Cinco Mil" era devido ao preço de cada um destes lotes de doze e meio hectares. Custavam cinco mil "contos de réis", quantia modesta que hoje significaria de quinhentos a setecentos reais, aproximadamente. Naturalmente foi com grande sacrifício e determinação que os Gregórios levantaram os recursos para ali se estabelecerem. Estavam assim repartidos: Manoel (Nel) e Cristina com vinte e cinco hectares, Julia casada com Chico Gregório, doze e meio hectares. Seu Idalino e Dona Maria que viviam com Teresa, única filha solteira, construíram a casa no terreno do Nel. Tinham comprado uma colônia mas a guardavam para presentear a Rita e Sebastião."

Ela própria relata um pouco da história de sua iniciação no Daime na impactante entrevista prestada a Adelise Noal Monteiro, médica e parteira, publicada no site da ONG Amigas do Parto:

"A Madrinha Rita casou com o Padrinho Sebastião, ficaram morando lá [no Juruá]... E o Nel veio pra Rio Branco com o pai dele. A D. Maria Francisca das Chagas e o pai dele, a Júlia, a Tetê e o Nel. Aí vieram morar lá no Rio Branco, perto da gente. Aí eu conheci eles. E por aí começou tudo! Aí casei com ele, com o Nel e fui morar na Colônia Cinco Mil. Aí o Padrinho quis vir aonde estava o seu Idalino com sua família. E veio... Quando ele chegou na Cinco Mil eu tava morando lá. Já tinha a primeira filha que é a Sílvia. Foi quando eu conheci os dois [Padrinho Sebastião e Madrinha Rita]. Quando ele chegou eu já sofria muito, sofria de muita coisa e ninguém sabia o que era. No fim, quando ele chegou, ele já trabalhava no espiritual, sem Daime mesmo. Porque ele começou sem Daime. Com Daime que ele recebeu mais coisas. Aí foi pra minha casa e lá ele viu e começou a me tratar. Fazer aqueles trabalhos e tal... Então, eu senti que fui melhorando daquelas coisas que me perseguiam. A gente quando é espírita, às vezes nem dá fé, chegam aquelas coisas... leva pancada, leva dor, e grita, e... Às vezes são os espíritos... Daí pra cá ele foi me desenvolvendo e tal. Aí fui melhorando e me agarrei com ele, segura mesmo e tô aqui. Sofrendo mas sou feliz. Porque tenho ele no meu coração, entreguei meu amor a ele. Embaixo de Deus, de Jesus e ele na terra que me ensinou. Através de Jesus, mandaram tirar eu daquela escuridão que é coisa ruim. Aí fiquei com ele. Depois ele entrou no Daime, botou nós e eu tô feliz de tomar este líquido. Quem não provou, venha provar, esta bebida que aqui está.”

No site Daime foi publicada uma gravação de "A Mensagem" realizada por Roberval Raulino na noite de velório de sua querida mãe no Céu do Mapiá. Estamos disponibilizando aqui uma gravação especial do hinário da Madrinha Cristina na voz apenas de sua filha Rutilene, para estudos, e também os hinos presenteados à Madrinha em gravação realizada na Igreja do Céu do Mar, no Rio de Janeiro. Para obterem os downloads das mp3 com cadernos e cifras cliquem em:

30/10/07

Preleção do Padrinho Sebastião Mota

A preleção é o discurso ou conferência didática. É uma peça oratória que o orador pronuncia para instrução de seus ouvintes. Segundo os jesuítas, "a preleção e a repetição, constituem resgate literal de instrumentos dos Exercícios Espirituais e da Ratio Studiorum" de São Ignacio de Loyola, fundador da Ordem. A chamada Preleção Inaciana é o instrumento mediante o qual o professor prepara seus alunos para a atividade pessoal que deverão realizar. A preleção pode produzir autênticos conhecimentos e hábitos firmes, além do estímulo e motivação para a aprendizagem. Recupera algo muito jesuítico, sendo útil para contextualizar, motivar, iniciar a experiência, aprender. Já a Repetição inaciana procura retomar o tema que se está estudando recuperando aqueles pontos que produziram maior satisfação ou insatisfação. Em geral, na repetição inaciana se verifica também o que se compreendeu, que pontos devem ser reforçados e de que modo se poderá continuar avançando. Ajuda a esclarecer o momento da aprendizagem que se está vivendo e aprofunda a assimilação do aprendido. (Fonte: "Pedagogia Inaciana, Uma Visão Sintética").

"Os objetivos da preleção espírita são dois: ensinar o Evangelho e instruir sobre o Espiritismo", diz o texto O Orador Espírita. O uso de preleções é comum a várias escolas espirituais, tanto entre o budismo, por exemplo, como na umbanda, em ocasiões determinadas. No caso da Doutrina de Juramidam, o segundo hino de Antônio Gomes foi quem trouxe a primeira preleção cantada, remetendo ao aspecto escolar do aprendizado espiritual na Doutrina de Irineu Serra. Geralmente as preleções aconteciam ao término das sessões de concentração ou no seu ínterim, por parte do dirigente ou alguém por ele indicado, sempre de forma espontânea (sem redação preliminar) e submetido à força do Daime ingerido para que as palavras vibrassem com a força e a autenticidade do Astral.

Há uma gravação de uma preleção do Mestre Irineu, feita em fita magnética no final dos anos 60, que muito deteriorada foi recuperada no final da década passada, sem muito sucesso, sendo que o cd-master com o resultado foi recolhido ao Acervo do Memorial Irineu Serra, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Rio Branco e do Estado do Acre. Gravações de preleções do Padrinho Sebastião têm sido difundidas, dentre as quais a que aqui apresentamos, com melhor qualidade de audição. Sobre o Padrinho, assim se referiu o dirigente da Igreja Céu do Mar, no Rio de Janeiro, em preleção realizada no fardamento da Noite de São João de 2007 (leiam o texto completo aqui):

O Santo da noite de hoje é São João Batista muito presente na nossa religião, a linha do Padrinho Sebastião nos leva a São João Batista, por tudo que São João representa na palavra do entendimento, João abre caminho para o Cristo chegar, da mesma forma que o arrependimento abre caminho para o perdão, então São João Batista é o batizador, com o poder de levar cada alma ali no Rio Jordão, ao renascimento, o sentido de renascimento, o renascimento do batismo, o sentido também de lavar os pecados, deixar tudo pra traz e começar tudo de novo, esta é a presença de São João Batista. O Padrinho Sebastião sempre foi um aparelho dele, como está bem claro no hinário do Padrinho Sebastião, então é sobre as bênçãos do Santo de hoje que pra nós tem a mesma importância que tem o Natal, tem o "Feliz Natal" e tem o "Feliz São João", que são dois tempos básicos do ano, os solstícios, onde troca a estação, e feliz da alma encarnada e desencarnada aqui presente que puder se encontrar com o Mestre dentro do hinário dele, quem realmente conseguir assim se abstrair, tirar as sandálias do ego, quem conseguir sair da realidade imediata trazida na miração no hinário do Mestre Irineu, acaba se encontrando com ele, e é dessa comunhão que vem a luz pra nós, vem as curas, vem os ensinamentos, feliz da alma que na noite de São João Batista puder se encontrar com o Mestre.

Como colaboração do irmão Eduardo Sampaio, da Igreja Céu do Ceará, apresentamos aqui uma gravação do Padrinho Sebastião com duração de trinta minutos, a qual tem sido utilizada pelo Padrinho Nonato Teixeira em concentrações, e traduz um momento histórico preciso na trajetória do Cefluris. Para obter o download, cliquem em:

29/10/07

Maria Gomes e sua filha Adália Grangeiro

Maria Gomes nasceu no começo do século 20 em um seringal do Acre e se casou com o cearense Antônio Gomes, que chegara do Pará com a família e lá enviuvara ficando com uma penca de filhos para criar. Em 1938 conheceram o Mestre Irineu e seu trabalho, e a família entrou para a Doutrina, como nos relata Jairo Carioca:

Da nova família, além de Antônio Gomes da Silva, o patriarca, os seus filhos Leôncio Gomes, Raimundo Gomes, Adália Gomes, José Gomes e dona Zulmira Gomes também passaram a freqüentar a sessão. Dona Zulmira, casada com o senhor Sebastião Gonçalves, levou à missão seus filhos Raimundo Gonçalves, João Gomes, Benedita Gomes, Heloísa Gomes e Peregrina Gomes. Essa família fortificava a edificação da doutrina, como o próprio Antônio Gomes, que passou a receber um rico e instrutivo hinário, onde relata:
"O Mestre trabalhava, se achava quase sozinho, pediu a Jesus Cristo que abrisse o seu caminho".

Antônio Gomes faleceu oito anos depois, havendo pedido ao Mestre Irineu que amparasse sua família. O Mestre então assumiu essa responsabilidade, especialmente em relação à viúva e aos filhos menores. Adália, filha caçula de Dona Maria, se casou nos anos 50 com Francisco Grangeiro. Tive a oportunidade de cantar o hinário de Antônio Gomes na residência desse casal, na presença de Dona Maria, então já nonagenária, quando ela tinha até dificuldade de falar, e é uma pena não haver podido entrevistá-la na época para saber mais sobre sua vida na Doutrina. Na década de 60, a presença de Maria Gomes como membro da primeira Comissão de Cura do Mestre é registrada por Jairo Carioca:

É das bases do Círculo Esotérico que Mestre Irineu organizou (...) seus trabalhos de cura. Como já vimos, até esta data os trabalhos de cura eram realizados nas quartas-feiras. Sempre que um irmão estava necessitado, Mestre Irineu reunia seus membros e trabalhava a cura da pessoa em trabalhos que poderiam se repetir de três a até nove sessões. Com a organização desses trabalhos, Mestre Irineu criou uma Comissão de Cura - que seria responsável pelo acompanhamento dos irmãos enfermos. Nove pessoas, integrantes do Estado Maior, formavam essa comissão: 1 - Madrinha Peregrina; 2 - Percília Matos; 3 - Lourdes Carioca; 4 - Zulmira Gomes; 5 - Maria Gomes; 6 - José das Neves; 7 - Francisco Martins; 8 - Francisco Grangeiro; 9 - Júlio Chaves Carioca.

Comentam esses seguidores antigos que os objetivos de Mestre Irineu ao fundamentar essa equipe eram mais amplos. Um dia o Mestre comentou com Júlio Carioca: "Quero, Júlio, concentrar-me aqui (referindo-se ao Alto Santo) para trabalhar em benefício de uma pessoa que esteja doente no Japão", testemunha Júlio Carioca. "Em duas ocasiões chegamos a nos reunir com esse objetivo, acrescenta dona Lourdes Carioca. A primeira foi quando houve um incêndio grande nas matas do Maranhão que ninguém conseguia apagar. O Mestre nos reuniu, tomamos Daime e fomos bater lá. Na miração, via ele na frente e nós com uma porção de vassourinhas ajudando a apagar o fogo; outra vez foi na Segunda Guerra Mundial, naquela época eu não estava ainda na sessão, mas o Mestre me falou que também se concentrou pedindo paz para o mundo todo".

Apresentamos aqui uma gravação dos cadernos de hinário de Dona Maria Gomes e de sua filha a Madrinha Adália Grangeiro, conduzida pelo neto Valsírio Grangeiro. Não possuímos o caderno digitado, e no momento apenas disponibilizamos os vinte e seis hinos de ambas, sem poder determinar onde termina um e começa o outro. Entretanto, pela beleza da gravação e a força destes hinos, consideramos indispensável proporcioná-los desde já. Para obter o download do arquivo compactado com as faixas wma, cliquem em:


Colaboração: Juarez Duarte Bomfim

25/10/07

Carlos Augusto Strazzer em seu hinário

Pintura de El Greco (1585): A Virgem da Conceição com São João Evangelista

"Um abraço dado de bom coração é mais que um abraço, é uma benção". Lembro da canção da Baixinha ao lembrar do abraço fraterno que recebia de Carlos Augusto Strazzer ao término dos hinários na Igreja do Céu do Mar, no Rio de Janeiro. O grande ator ingressou no Santo Daime no final dos anos 80, época em que outras celebridades como Lucélia Santos e Ney Matogrosso se "fardaram" na Doutrina. No Acre daquele tempo, o deputado João Tezza declarava na Assembléia Legislativa que Rio Branco seria invadida por verdadeiras caravanas de aidéticos devido à veiculação no Rio de Janeiro de um boato segundo o qual uma mulher soropositiva teria sido curada na Colônia Cinco Mil (na verdade, uma mulher com diagnóstico soropositivo, vivendo na Colônia, foi mordida por uma cobra venenosa, e após a cura com soroantiofídico, ao refazer seu exame de HIV encontrou que estava soronegativa, e não foram mais confirmadas "curas milagrosas" como a sua). O sensacionalismo do deputado acreano ficou por isso mesmo, e os aidéticos que porventura buscam ou buscaram tratamento com o Daime, tanto no Acre como em outras partes do Brasil e do mundo, tiveram consciência de que para o infectado a bebida colabora fisica, psiquica e espiritualmente, mas não é nenhuma panacéia cura-tudo como alguns se apressaram em querer anunciar a princípio.

Carlos Augusto Strazzer (São Caetano do Sul, 4 de agosto de 1946 - Petrópolis, em 19 de fevereiro de 1993) foi um famoso ator brasileiro. Participou de diversas peças teatrais como "Cemitério de automóveis", de Fernando Arrabal, "O Balcão", de Jean Genet, dirigidos por Victor Garcia e produzidos por Ruth Escobar, "A Moratória", de Jorge Andrade, o grandiloqüente musical "Evita", um dos maiores sucessos da cena carioca dos anos 80 e "As ligações perigosas", de Choderlos de Laclos, outro êxito do final daquela década. Ficou conhecido por sua participação na televisão, em muitas telenovelas, como "Éramos Seis" (1977), "O Profeta" (1977/78) e o remake de "O Direito de Nascer" (1978), na antiga TV Tupi, tramas que o projetaram nacionalmente, e "Coração Alado" (1980/81), "Jogo da Vida" (1981/82), "Champagne" (1983/84), "Livre Para Voar" (1984/85), "Mandala" (1987/88) e "Que Rei Sou Eu?" (1989), além das minisséries "Moinhos de Vento" (1983) e "O Sorriso do Lagarto" (1991), todas pela Rede Globo.

Era conhecido por interpretar vilões ou personagens misteriosos e místicos, os quais impregnava de elegância e ambigüidade. Infelizmente fez poucos filmes, como "Gaijin – Os caminhos da liberdade" (1980), de Tizuka Yamasaki, "Eles não usam black-tie" (1981), de Leon Hirszman, "Com licença, eu vou à luta" (1986), de Lui Farias e "O Mistério do Colégio Brasil" (1988), de José Frazão, além de participações especiais na produção internacional "Moon over Parador" (1987), dirigida por Paul Mazursky e no documentário "Interprete mais, ganhe mais", dirigido por Andrea Tonacci, que trata do cotidiano do grupo teatral de Ruth Escobar e que ficou embargado na Justiça por vinte anos. Faleceu em 1993, aos 47 anos incompletos.

Em entrevista publicada na Revista Veja em maio de 1992, intitulada "A opção pela vida", Strazzer admitiu publicamente estar com Aids, e falou um pouco sobre sua visão espiritual sobre o processo da doença:

VEJA - A Aids mudou a sua maneira de encarar a morte?
Strazzer- Sempre fui fascinado pela morte. Eu sempre fui um especulador das ciências ocultas, um estudioso do espiritismo cristão, de religiões que tentassem explicar a morte de uma forma menos ingênua que a cristã tradicional. Desde adolescente, eu reflito sobre o que poderá acontecer após a morte. Quando a Aids veio, achei que minha hora havia chegado. Pensei em morrer educada e dignamente. Não podia decepcionar a galera. Afinal, por tudo o que eu havia lido, ter Aids significava ficar com aquela figura cadavérica publicada pelos jornais e morrer. Até que eu percebi que havia uma possibilidade de não ser assim.

VEJA - Como surgiu essa possibilidade?
Strazzer - Não foi um médico quem me deu isso. Veio de foro íntimo, de esforços consideráveis para compreender o que estava acontecendo e não me entregar. Eu tenho um poder dentro de mim, que é um poder decisório, uma vontade. Tenho que ter vontade de viver e descobri motivações verdadeiras para continuar vivo. Essas motivações estão ligadas às pouquíssimas pessoas, que atravessaram comigo o vale da sombra da morte, inesquecíveis amigos que conseguiram imprimir na minha alma e no meu coração uma vontade de estar com eles ainda mais um tempo. (...)

VEJA- O senhor teve vontade de morrer?
Strazzer - Não exatamente. Eu achei que a agonia era uma coisa muito sem graça. Será que não existia outra forma de morrer, na qual eu não tivesse que passar por aquela dor, aquela porta estreita, aquele buraco de agulha? Mas tive vivências muito particulares nesses momentos. Foi bom analisar quem era eu e qual era a minha historinha. E minha historinha era quase medíocre, mas gostei dela. Não fui um grande sujeito, nem um grande ator, mas era um cara legal, bom caráter, tinha vivido bem, cercado de bons amigos, com três lindos filhos e uma ex-mulher maravilhosa. Comecei a montar a minha biografia: Carlos Augusto Strazzer nasceu assim, foi um adolescente, em adulto fez uma porção de coisas; aí pegou uma doença terrível e morreu. Que morte boba! Será que não dava para mudar o script? Que final piegas e melodramático... Tive, então, vontade de mudar o final.

VEJA - Aconteceu alguma coisa que propiciou essa virada?
Strazzer - Eu estava muito mal e não agüentava mais sentir tanta dor física. Comecei a rezar, mas me senti meio ridículo, beato, e questionei se Deus existia mesmo. Mas a dor era tanta que a revolta passou e eu rezei o pai-nosso mantricamente, ou seja, pensando em cada frase. Quando cheguei no "seja feita a Tua vontade", não consegui continuar. Se eu acreditava que Deus estava em mim e não era um velhinho de barbas brancas inacessível, mas um estado de consciência interna, então eu tinha de entrar em contato comigo mesmo. "Seja feita a Tua vontade" não significava a vontade de alguém de fora em relação a mim. Abriu-se um telão azul deslumbrante e uma voz, muito parecida com a minha, só que em dolby-stereo, me perguntou se eu queria a cura ou não.

VEJA - Qual foi sua resposta?
Strazzer - Meu primeiro instinto foi dizer "sim”. Mas será que era isso mesmo? O outro lado era tão maravilhoso... Por que eu iria ficar nesta Terra tão complicada? Aí, a voz me disse que eu precisava querer alguma coisa, que eu devia usar a vontade correta. Eu precisava de uma motivação para viver, senão minha vontade não seria legitima. (...)

VEJA - E a esperança de cura?
Strazzer- Já pensei muito nisso. Faz um tempo que não penso mais. Às vezes, acho que estou indo embora. A cura não é mais um núcleo de ansiedade e reflexão da minha parte. (...)

VEJA - O senhor pretende voltar a atuar?
Strazzer - Gostaria de montar um espetáculo no qual eu recitasse alguns poetas místicos, como os persas Rumi e Attar e os espanhóis São João da Cruz e Teresa d'Avila. Seria uma encenação com uma bailarina, um instrumento, uma coisa simples de meia hora de duração. São poemas belos, que falam sobre a noite escura: Vivo sem viver em mim e tão alta a vida espero que morro e por que não morro? É um universo que eu conheço, de delicadeza sobre a morte e a espiritualidade.


Os dezoito hinos recebidos (ou "percebidos") por Strazzer passaram a fazer parte, na época, de alguns trabalhos no Centro Eclético da Fluente Luz Universal Sebastião Mota de Melo - Ceflusmme, onde também os três filhos do ator eram fardados, e assim foram conservados. Para obter o download das mp3 desse hinário, clique em:


Colaboração: Jaime Wanner.

24/09/07

Ciris Midam e os hinos da Madrinha Percília


Percília Matos da Silva, zeladora da obra do Mestre Irineu e gerente-geral dos hinários de sua Doutrina, começou a tomar Daime ainda muito criança, e se lembrava até do primeiro festejo de São João:

"Era 23 de junho de 1935, o Mestre organizou duas frentes de trabalho. Os homens foram tirar lenha para fogueira, as mulheres, preparar a ornamentação e uma grande ceia que o Mestre pediu para fazer no intervalo. Quando foi lá pelas seis horas da tarde, na Casa de dona Maria Damião, nós nos reunimos, rezamos um terço, tomamos Daime e fomos cantar até meia noite. Só tinha oito hinos! Um de Germano Guilherme, quatro do Mestre, dois de João Pereira e um de Maria Damião. Eram repetidos nessa mesma ordem por toda a noite. Quando foi meia noite ele deu um intervalo, já estava preparada a ceia numa grande mesa, quando ele mandou que nós cantássemos por três vezes aquele hino:

Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Graças a mamãe

Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus

Esse hino foi cantado de forma tão bonita, que nunca mais me esqueci... até hoje... chora emocionada dona Percília Matos. Foi depois disso que Irineu Serra, seguindo orientações de sua professora Clara, ordenou as datas para a realização dos hinários, formando o primeiro calendário de hinários oficiais da doutrina.

Além dessas datas de festejo oficial, era normal a realização das sessões de concentração aos sábados e das sessões de cura nas quartas-feiras. As datas evidenciavam os primeiros traços do cristianismo na Missão de Irineu Serra, segundo Jairo Carioca.

Como responsável que foi em dar forma escrita aos hinos formadores da Doutrina, ela se tornou a gerente-geral dos hinários, e assim tinha o encargo de passar a limpo os hinos recebidos, ou seja, corrigi-los. Hoje em dia pode ser difícil diferenciar os hinos "recebidos do Astral" dos hinos ditos "inventados", considerando-se talvez esses cânticos rituais mais como ferramentas humanas e menos como instruções divinas, mas até isso evidencia o quanto uma Doutrina originária do Mestre tem sofrido alterações por parte dos que declaram ser seus seguidores. Eu pessoalmente tive oportunidade de "passar a limpo" meu próprio caderno de hinário com a Madrinha Percília, e além de algumas palavras que ela modificou, recebi a explicação de que os hinos de um hinário devem guardar entre si uma relação progressiva de aprendizagem pessoal, uma ordem ascendente, e portanto hinos que repassam abordagens anteriores da própria pessoa (entendimento este muito subliminar, talvez) devem ser descartados, ou esquecidos, não-cultivados. E ela mencionou que o próprio João Pereira, cujo hinário é um dos principais do Mestre, teve trinta hinos suprimidos por este quando passados a limpo.

O hinário da Madrinha Percília se resume a quinze hinos, o que nos faz lembrar que o da Madrinha Rita são apenas vinte e cinco, o da Madrinha Peregrina são onze, e nem por isso são hinários desimportantes ou pouco fundamentais. Em termos de conteúdo, quanto aos hinários, às vezes "menos" hinos falam "mais", ou proporcionam melhor resultado prático, do que ser responsável por um conjunto de muitos hinos. Essa economia da expressão, entretanto, parece ser pouco observada na atualidade, quando sabemos há indivíduos que possuem várias centenas de hinos (às vezes até subdivididos em vários cadernos). No tempo do Mestre, e isso não quer dizer que em um "tempo atrasado" ou uma "época de vacas magras", receber um hino era não apenas uma responsabilidade espiritual mas também uma prova, e os que se diziam donos de hinos eram provados no Daime, sendo chamados pelo Mestre para puxarem e bailarem seus respectivos hinários "na força" dessa comunhão, sem cadernos de apoio, tirando apenas do âmago de sua alma a memória, a harmonia e o ritmo dos hinos, o que não dava margem à permanência de hinos "inventados" na irmandade. Quanto alguém passava pelo "vexame" de não conseguir apresentar devidamente a letra de um hino que declarara haver recebido, essa "linha da verdade" mostrava o quanto o desprendimento e a humildade são requisitos naturais do aprendizado espiritual, e atitudes de avidez, orgulho ou auto-promoção através dos hinos são pouco recomendáveis por induzirem (e em muitos casos conduzirem) ao erro ou à falsificação ideológica. O Daime é um misterioso professor que muitas vezes "dá corda para ferrar no anzol", por isso a grande preocupação dos antigos seguidores do Mestre em observar as recomendações que este deixou de viva voz. A própria Dona Percília se auto-questionava quanto aos seus hinos, como demonstra esse trecho de entrevista de Clodomir Monteiro com ela, a respeito do hino que a apresenta como Taio Ciris Midam:

Clodomir - Este hino a senhora recebeu dentro da miração?
Percília - Dentro da miração...eu estava com uma febre neste dia!...
Clodomir - E foi uma entidade que dizia para a senhora isto?
Percília - Eu ouvi, não vi, eu ouvi a música....e quando eu dei de mim eu já estava cantando.
Clodomir - Que a sra. era realmente esta entidade...
Percília - É...Taio Ciris Midam...
Clodomir - E todos no Alto Santo reconhecem que a senhora é realmente Ciris Midam...
Pedro - Pois o próprio Mestre registrou... passou a limpo o hino... seu Eu superior...
Percília - Sim, o meu Eu superior...então quer dizer que eu sou da mesma família...de Midam...né ?
C
lodomir - Tá ligado a outra metade dele...
Percília - É...é isso aí.
Clodomir - É isso aí, um é Jura, outra é Midam, o masculino e o feminino...
Percília -Foi passado a limpo com o Mestre...

A Madrinha Percília, ao ficar órfã de pai ainda menina, veio morar como filha do Mestre em sua casa. Estudou, formou-se professora e casou-se com Raimundo Gomes nos anos 40. O casamento não deu certo, e ela voltou a morar na casa do Mestre até que encontrou um novo companheiro na pessoa do Senhor Pedro. Após o falecimento do Mestre, apoiou o Padrinho Sebastião quando da criação do Cefluris, e realizou naquela igreja modificações do fardamento (gravatas azuis e sapatos brancos para a farda masculina) que antes o Mestre manifestara vontade de fazer. Três anos depois ela deixou o Cefluris, juntamente com Daniel Serra, Luiz Mendes e outros, que não aceitaram outras modificações rituais. Apesar de eventualmente participar, seja na igreja do Padrinho Tetéo, seja no Pronto-Socorro do Senhor Raimundo Lorêdo, nunca voltou a ocupar a condução dos trabalhos como antes. Foi em uma rara oportunidade que a presenciei na igreja do Senhor Luiz Mendes acompanhando um trabalho de 6 de julho onde o hinário do Mestre foi cantado sem bailado, integralmente (todos os hinos, mesmo os especiais), na mesma formação de filas em pé na velação do ataúde que foi feita em 1971. Ela declarava o que sabia e o que pensava com toda sua veemência (leia o texto completo aqui):

Ninguém pense que aprendeu. Quem quiser aprender, se dedique ao Daime. Se prepare e tome. Não vou dizer que todos possam alcançar porque "nem todos estão na graça", como diz aquele hino do Seu Sebastião Mota.

O Mestre aprendeu e doutrinou o mundo inteiro. Por isso eu digo: todos têm vontade de alcançar, mas nem todos estão na graça... É preciso se conformar com o tanto que Deus lhe deu. Aqueles que tiverem o espírito evoluído de outras encarnações estão mais próximos. Se dedique ao Daime, que lá ele está. Chame o Mestre com amor.

Espiritualmente, o Mestre é uma santidade que comanda o mundo inteiro. Ele tem todo poder. E hoje, 21 anos depois, é a mesma coisa. É como se ele estivesse aqui no nosso meio. Não que eu esteja vendo, mas, pela intuição, a gente sente.

Meu maior prazer é ver esse trabalho ficar firme, direitinho, como o Mestre quer, não como ele queria, como ele quer, pois eu não considero que o Mestre está ausente. Tudo que nós fizermos dentro desse trabalho tem que ser com ele, tem de pedir licença a ele, porque ele é o dono, ele é o comandante e o chefe geral da missão. Portanto tem que render obediência a ele. Eu não permito é cada um fazendo do seu modo. Foi uma das coisas que ele pediu. No dia 30 de junho de 1971, poucos dias antes do seu passamento, houve uma concentração em benefício dele. Quando terminou, ele disse assim:

- Hoje foi que eu recebi a minha cadeira de presidente; cheguei lá no astral, tinha um salão, a mesa posta, e a cadeira da cabeceira estava vazia, a minha mãe chegou e mandou que eu tomasse conta da cadeira.

- De hoje em diante, você é o chefe geral desta missão, disse ela. Queira ou não queira, no céu, na terra e no mar, o chefe é você.

Ora, isso depois de quantos e quantos anos de trabalho? E ele disse: - Eu estou entregando esse trabalho ao Leôncio; ele não é o chefe, fica como representante desse trabalho. Agora uma coisa eu digo, ninguém queira ser chefe, se unam e vão trabalhar. Foi nesse dia que ele aprendeu que quando se formar a mesa para abrir um trabalho, é para deixar a cadeira dele vazia, pois chamando, ele viria ensinar.

- Mas ninguém queira ser chefe, e não inventem moda dentro desse trabalho, ele falou.

Por isso eu me sinto mal quando eu chego num serviço que não está certo. Eu não me sinto bem de jeito nenhum. Se eu pudesse fazer uma circular a todos esses centros de Daime eu diria: nós não podemos mudar o ritual, nós temos de seguir os ensinos conforme eles mandam. Outro dia eu fui em um trabalho em um centro aqui perto de Rio Branco e não gostei. Já fui mesmo a paisana, porque eu não sabia como estava a organização lá, parece que eu estava adivinhando. As filas desarrumadas, sem um destacamento que fosse responsável pela organização das filas, homens com a camisa para fora da calça, com a mão no bolso, outros com o braço solto, jogando o braço para lá e para cá, e o que é pior: a extinção do maracá. O maracá é que ajuda a marcar o passo do baile. Todo mundo com caderno na mão, nunca vi isso, alguns tocando maracá para cima, sem bater na mão. E o caderno - se estivessem ao menos lendo e cantando, mas tinha muitos que só olhavam e ficavam de boca fechada. Tá fora do ritmo, não é mesmo? E o ritmo do canto, da música? Cada hora era de um jeito, ora acelerando, ora devagar demais, e o ritmo deve ser incessante, firme. Eu perguntei o por quê do pessoal não usar o maracá, me disseram: "Ah! Porque eles não têm." "Mas o maracá é uma coisa muito fácil de fazer, todo mundo pode ter." "Ah! Mas eles não aprendem." Por que não aprendem? Ora, a criança vai a aula, no começo ela não sabe, depois vai aprendendo, uma semana, duas, faz o primeiro grau, faz o segundo, vai se evoluindo, segue carreira. Então, por que não aprende? Por que não tem um instrutor, uma pessoa que instrua, que ensine como é. Agora deixar cada um chegar e fazer como quiser, não pode. Então, se ele deixou para todo mundo usar o maracá, é para usar maracá, não é? Não é caderno, ele não deixou ninguém usando caderno. Até a saída dele, não existia esse negócio de caderno na mão no hinário, de jeito nenhum, todo mundo aprendia corretamente e na hora já sabia, estudava em casa, mas na hora do trabalho, ninguém levava caderno. Como eu não faço parte da diretoria de lá, não falei nada, mas essa responsabilidade pesa nos meus ombros, pois o Mestre me disse: "Onde você for que não estiver certo, você tem que corrigir." No hinário, cada fila tem de ter o "pelotão", a pessoa responsável pela fila. Quando às vezes uma pessoa passa mal, por um momento, por causa das suas culpas, sei lá, tem que ter o fiscal para amparar, homem para homens, mulher para mulheres. O fardado só tem direito de sair por três hinos, no máximo. O ensaio é muito importante, pois é ali que a pessoa vai aprender, para quando chegar o trabalho oficial, todos estarem sabendo. Nosso trabalho é como um quartel, todos iguais. O principal na atitude do fardado é a obediência, cada um prestar o seu serviço com o máximo de obediência, cada um tem a sua posição, o seu posto de serviço, portanto, tem de assumir com muita dedicação e obediência. Tem muita coisa boa dentro desse hinário do Cruzeiro, é preciso é compreender, muitas pessoas cantam, mas a compreensão fica tão adversa... E não tem esse negócio de mistura de linha não, de atuação, nunca vi o Mestre se alterando em nada.

Compreender essas diferenças de fundamento da experiência religiosa com o Daime, de "sair para o invisível" como configurado pelo Mestre Irineu (cujo trabalho expressava mais uma base na cultura andina, ameríndia) ou de "incorporar entidades" (como nas culturas africanas), é uma tarefa árdua para os seguidores do Mestre Irineu. Eu pessoalmente compreendo que ambos sentidos da jornada (para fora e para dentro) são importantes e não excluem um ao outro, apenas deve-se observar para cada um o entorno ritual respectivo, e respeitar as especificidades dos participantes dentro do trabalho ritual construtor de uma coletividade própria.

Para obter os arquivos wma do hinário da Madrinha Percília, juntamente com seu caderno para impressão, faça o download clicando em:

12/09/07

São Francisco bem louvado na Vila Carneiro

São Francisco
(hino 06 do Padrinho Nonato, ofertado à sua esposa a Madrinha Graça)

Estou aqui, estou aqui, estou aqui
Implorando a meu Salvador
Que me dê a santa saúde
Por vosso divino amor

Oh! Minha Mãe aqui estou em vossos pés
Implorando para me libertar
Para quando chegar o dia
Eu poder me apresentar

Me apresentar perante a meu Pai
Com firmeza e pureza em minha alma
Pedindo sempre
Vossa divina calma

Esta calma é verdade e harmonia
Que resplandece em nós todo o dia
Para compreendermos que somos filhos
Da Sempre Virgem Maria

Oh! Meu Pai, Oh! Que dor no coração
De ver tanta ingratidão
Dentro deste jardim
Que forma esta união

Mas vou seguindo é com fé e com amor
Na doutrina do meu Salvador
Que dele eu recebi
O meu prêmio de valor

Oh! Meu Pai a Vós estou agradecendo
Por tudo isto que estou entendendo
Mas sempre peço a Vós
Para eu ir compreendendo

Compreendendo as lições do professor
E seguindo com esperança no Senhor
Que Vós é quem nos livra
De todos esses terrores

Sinto dor, sinto dor, eu sinto dor
Quando lembro deste andor
Que me relembra tudo
Mas vigora o amor

Mas é preciso se humilhar e consagrar
Para poder enxergar
Essa grande batalha
Que temos que atravessar

Oh! meu Pai aqui estou arrependido
Por ter tanto lhe ofendido
Mas sempre vos imploro
Que eu não seja perdido

São Francisco ele vai se apresentar
Me dando força perante este altar
Me reconciliando e sabendo
Que somos todos iguais

Estou aqui estou vendo clarear
Sentindo fogo e meu corpo balançar
Ouvindo a voz do céu
Que me faz despertar.

Raimundo Nonato Teixeira de Souza, filho caçula do Padrinho Wilson Carneiro de Souza e da Madrinha Zilda Teixeira, nasceu em Tarauacá, município do estado do Acre, em 14 de Julho de 1949. Iniciou seus trabalhos no Santo Daime em 1962. No ano de 1990 passou à administração da Colônia Cinco Mil, cargo que ocupou por sete anos, até pouco antes da passagem de seu pai. Hoje, desenvolve seus trabalhos com o Santo Daime na Vila Carneiro, vizinho à Colônia Cinco Mil, zelando pelo Pronto Socorro de Cura Raimundo Irineu Serra e é um grande divulgador dos preceitos doutrinários deixados pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e o Padrinho Sebastião Mota de Melo. Atualmente é vice-presidente do Pronto-Socorro dando continuidade aos trabalhos realizados por seu pai Wilson Carneiro de Souza. Contemporâneo que foi do Padrinho Alfredo Gregório desde antes da criação do Cefluris, coube ao Padrinho Nonato, em uma forte concentração nos primeiros anos da igreja da Cinco Mil, a chamá-lo "Salomão": pelos dons da inteligência e justiça que este encarnava. Apesar de haver se retirado do Cefluris por uma questão de autonomia, a "Aliança Estelar" de ambos com certeza continua a refulgir.

Publicamos já neste blog uma parte do hinário do Padrinho Nonato (veja aqui) falando dessa sua especial devoção a São Francisco, expressa também na realização dos festejos em comemoração do Santo, 4 de Outubro, cantando este hinário. Agora, numa especial cortesia do irmão Eduardo Sampaio, do Céu do Ceará, divulgamos este hinário completo, com caderno, gravado em 14 de julho deste ano na inauguração da nova sede do Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra, na chamada Vila Carneiro, na Estrada da Colônia Cinco Mil.


Para baixar as mp3 do Hinário "O Peregrino", obtenha o download clicando em:


São Francisco instrui o Lobo (1911, Carl Weidemeyer-Worpswede). Xilogravura. Die Blümlein des heiligen Franziskus von Assisi. A compreensão profunda e empática que São Francisco tinha do mundo natural o habilitava a comunicar-se com os animais.