17/01/2010

O Semeador

Busto do Padrinho Mota na Casa de Feitio do Céu do Matutu - foto: Visionshare

CARTA ABERTA AO PADRINHO SEBASTIÃO MOTA
POR OCASIÃO DO VIGÉSIMO ANIVERSÁRIO DE SEU FALECIMENTO

Rio Branco – Acre, 20 de janeiro de 2010

Querido padrinho:

Já está fazendo vinte anos que o senhor se mudou deixando o nosso convívio, e como vinha passando um chasque que poderia levar uma cartinha até aí eu resolvi escrever essas linhas, vamos ver se vai dar certo. Recordo que, uma das últimas vezes que conversamos, lá no Anajás, o senhor me disse que nunca tinha feito mal a ninguém e eu olhei dentro dos seus olhos assim bem de pertinho, porque eu mesmo estava talvez duvidando, e reparei então o azul da velhice ladeando as suas vistas, e quero dizer que agora entendo seu sofrimento, em conduzir adiante uma cristandade que em dois mil anos de existência tantos tropeços contra as palavras do Cristo veio cometendo, reencarnação após reencarnação, e ainda com a tamanha oportunidade de conhecermos a nós mesmos como a luz do Santo Daime nos dá, se faz de desconhecida e em vez de se restaurar faz é repetir as mesmas vaidades, as mesmas ilusões e os mesmos enganos. Sei, padrinho, que o senhor se sentia cansado, que lhe faltavam forças para erguer sua voz como o senhor queria e a mão já abandonara o rebenque do chiquerador por entregar a Deus que fizesse sua justiça, mas o senhor saiu desse mundo fazendo muita falta especialmente pros mais jovens e pras crianças que iam enfrentar muitas transformações no modo de viver de nossa gente, e com certeza continua nos faltando para colocar os pingos nos is e ensinar o povo que chegou, e continua chegando, a separar o joio do trigo.

Embora o senhor tivesse em sua despedida com o padrinho Wilson Carneiro aceitado o ponto de vista do seu grande amigo e deixado claro que, quanto mais a Doutrina no centro voltasse a ser praticada nos moldes do Mestre Irineu mais estaríamos fazendo gosto ao Mestre, não foi isso o que aconteceu. A própria família de vocês parece ter esquecido como foi instruído o trabalho de Estrela, que a igreja devia ser lugar apenas dos rituais do Mestre e que outros serviços deviam ser realizados em local próprio – o povo aceitou desconsiderar isso e considerar outras novidades de acordo com o topete de cada um, talvez porque tenham passado muitas privações e por isso depois passaram a sofrer de ganância descontrolada, mas faltou juízo e por isso faltou responsabilidade para com o cuidado que cada um antes recebia com tanto carinho e dedicação dos nossos padrinhos e das nossas madrinhas que buscavam ser um exemplo para os mais novos. Como disse o Frei Damião, esse tempo de “muito chapéu para poucas cabeças” chegou, são poucos que pensam no que é bom e sabem viver com alegria, muitos em vez de se sentirem libertos pelos ensinamentos da Doutrina se sentem é acorrentados a aparências e dependências, como se nosso bom Mestre quisesse por acaso ser um senhor de escravos, como se o senhor por acaso tivesse vocação para carrasco. É tanta coisa, padrinho, tanta confusão, o roto falando do esfarrapado e muita pouca gente disposta a se despir das ilusões para receber a armadura da salvação. Pedimos e rogamos mas não sabemos alcançar, até seu nome deixam enlamear com calúnias por faltar coragem e brio para assumir as próprias mazelas e equívocos. Entre tantas cinzas porcerto hão de surgir os diamantes, é certo o que dizia o vô Corrente que o importante é que alguns conseguissem triunfar, e aos que fazem esse esforço eu peço a vocês em nome de Jesus que os fortaleçam e iluminem, protegendo-os de tanta intempérie.

Hoje, meu padrinho, eu queria me dizer sebastianista, que sou um dos que levantam sua bandeira da paz, não que espere o antigo Rei Sebastião ressurgir das areias do deserto mas porque sou um dos que querem ver suas instruções e seus últimos pedidos considerados e obedecidos como se o senhor estivesse mesmo em carne e osso entre nós abrindo sua voz para nos alertar de cada toco de mato a desviar, de cada espinho a evitar, de cada resvalo a ter que saltar nessa trilha cotidiana que nos conduz à vida eterna. Queria, e quero: sou sebastianista, mais um filho de papai Sebastião, mais um neto, mais um sonhador a acreditar na verdade de sua fé e em tudo que ele aprendeu para ensinar. Tenho saudade, meu grande amigo, mas espero um dia chegar onde o senhor está para lhe agradecer por tudo.

De todo coração, -

Eduardo.

Um comentário:

Moisés Diniz disse...

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