06/08/2007

Trabalho de Cura

Arte de Helka Lu: estandarte com a figura do Mestre Irineu na Igreja Céu da Lua Cheia (São Paulo)

Em depoimento ao jornal acreano Página 20, o nonagenário Mário Rodrigues Albuquerque contou sua experiência de cura com o Daime:

Seu Mário Albuquerque comenta que, logo no primeiro dia que tomou a santa bebida, começou a se metamorfosear e, na ‘miração’ que teve, viu uma mesa cheia de médicos e enfermeiros que começaram a operar o seu estômago. Fui operado no invisível com o mestre Irineu. Guiados por Jesus Cristo, eu vi nitidamente os espíritos curadores tirando pedras dos meus rins e do meu fígado. Antes deste contato, eu sentia muitas dores e não podia comer nada. Depois do trabalho espiritual, as dores desapareceram e nunca mais adoeci”, relata. Para ele que participa da doutrina há 40 anos, o Daime é uma santa bebida. Veículo concreto para que Jesus Cristo, o mestre dos mestres, possa curar as doenças que maltrata o desgarrado homem na terra. “Isso depende também do merecimento de cada um”, diz reafirmando que quem cura mesmo é Deus. “Hoje dou testemunho dessa doutrina porque, verdadeiramente, não sinto mais nenhum tipo de doença, mesmo tendo 90 anos”.
Falando da estreita amizade que cultivava com o mestre, seu Mário conta que Irineu Serra lhe disse que, no principio da doutrina, tomou Daime, se separou da matéria, subiu para o astral e se encontrou com a Nossa Senhora, genitora de Jesus Cristo. Ele pediu a virgem mãe para que, na terra, fosse um curador de todos os males que afligem a frágil, feia e bela espécie humana. Segundo seu Mário, Nossa Senhora respondeu para Irineu Serra que ele não podia ser um curador porque iria cobrar dinheiro aos doentes, pois sua ação de cura não teria sucesso, nem para ele, nem para os enfermos, nem para ninguém. O mestre prometeu a Nossa Senhora que não cobraria nada de ninguém e, com a promessa de Irineu Serra, a mãe de Deus colocou todos as espécies de cura, todos os verdadeiros poderes, dentro dessa bebida. E, com os poderes de Jesus Cristo manifestados na bebida, Irineu começou a curar e a criar fama no Acre e em toda a Amazônia”, testemunha o sempre amigo e discípulo de Raimundo Irineu Serra.
O ancião, no alto do seu conhecimento, define o mestre Irineu Serra como um combatente das contradições existentes nos homens, suas teorias e práticas, palavras e ações. Mestre Irineu procurava enaltecer as virtudes e não os pseudo-defeitos humanos. Ele não atirava pedras em ninguém. Era contra a comercialização dessa santa bebida e dizia para todos que quem quisesse tomá-la viesse beber na sua origem. Entendo que a verdadeira amizade é a da ausência física, porque, de perto, ninguém é normal(...)
Falando dos conflitos atuais que afligem a espécie humana, seu Mário Rodrigues conta que mestre Irineu Serra queria e trabalhava para a existência de paz e de tranqüilidade entre os homens. Mestre Irineu não aceitava nenhum tipo de guerra. Ele era um cidadão de todas as raças, todos os povos, um homem simples e profundo que pertencia ao planeta terra. Ele morreu e ficou a desunião entre as pessoas, entre as famílias, entre as categorias sociais, entre os povos, isso é triste. Mas ainda é tempo do homem se redimir, se corrigir das suas contradições e dos seus pecados mundanos, infernos íntimos e conflitos sociais”, acredita o velho sábio.
Para finalizar, seu Mário diz que a mentira, a ganância, o consumismo, a falta de amor ao próximo, o teatro malfeito, a prepotência, a inveja, a luxúria, a dissimulação, a farsa, entre outras doenças psíquicas, são males e pecados maiores que o vício do álcool ou de outras substâncias entorpecentes, que também afligem e consomem os homens tolos. Examinem a consciência, examinem direitinho... Sou pai e não sou filho...”, diz parte de um hino do também seguidor do mestre Irineu, Sebastião Mota.

Um dos mais antigos seguidores do Padrinho Sebastião, Eduardo Salles Freitas, o Padrinho Eduardo, discorre sobre os trabalhos de cura com o Daime:

"(...) as mulheres têm que cantar sempre: “Se não agüentam tem que deixar para as outras, até poder voltar. O hinário aberto tem que ser cantado inteiro, não pode puxar hinos de outros hinários. O canto tem que passar sempre a firmeza de cada um, com amor e verdade, para ter força para ajudar aos irmãos na corrente. Para isso não pode ter ciumeira na igreja, pois a cura é para todos”. Sobre os trabalhos, nos lembra que o mais sério é o feitio: “Quando o Daime está apurando é que Deus vem se aproximando. Por isso tem que ter muita concentração para fazer o Santo Daime, e não é todo mundo que pode. Essa conduta vale também para o salão, onde se deve fazer sempre belezura, e não terrores. Trabalho de cura tem que ter calma e tranqüilidade, senão não cura. Tomar Daime é pra uma finalidade só, a salvação. Bebe para limpeza de espírito, pra receber a luz, se arrepender e ter salvação. O professor é o Santo Daime, e ele só ajuda se a pessoa merece”. “Não devemos esquecer da dieta de três dias antes e três dias depois do Daime, tanto para entrar quanto pra sair”, fala o Padrinho Eduardo – “a doutrina de Sebastião Mota é fora de toda vaidade, não se bebe bebida alcoólica”, e afirma: “Deus é a perfeição do sol, da lua e das estrelas, não tem moda, não tem modelo(...)"

A antropóloga Sônia Weidner Maluf, da UFSC, nos brinda novas referências a respeito em seu ensaio Mitos coletivos, narrativas pessoais: cura ritual, trabalho terapêutico e emergência do sujeito nas culturas da "Nova Era":

O que aqui denomino de trabalho terapêutico e espiritual compreende um conjunto de procedimentos, práticas e técnicas ligado a diferentes saberes terapêuticos e tradições religiosas e espirituais — meditação, uso da astrologia e de técnicas divinatórias como instrumentos de autoconhecimento (o tarot ou as runas), florais de Bach, terapia de vidas passadas, método Fischer-Hoffman, renascimento — que se fazem presentes em rituais de linhagens religiosas e espirituais estabelecidos como o Santo Daime, o movimento neo-sânias etc.
Cada indivíduo — paciente ou terapeuta — utiliza de modo singular um repertório variado, algumas vezes associando técnicas e concepções aparentemente contraditórias. Essas experiências distribuem-se em um leque de situações mais puramente terapêuticas do que as de caráter fortemente espiritual ou religioso. São adotados desde procedimentos típicos das psicoterapias "convencionais", ou mesmo da biomedicina, até aqueles que estão mais próximos de uma experiência ritual e religiosa, além da utilização de práticas e de saberes terapêuticos populares. Do mesmo modo que certos universos rituais incorporam processos de tratamento advindos de outras tradições, técnicas diversas são associadas segundo arranjos os mais variados, mesmo quando os mecanismos que visam à cura ou ao alívio dos sintomas, as formas de cuidado e a maneira de conceber o objeto do trabalho terapêutico são diferentes. Esse ecletismo aparentemente pragmático mostra, no entanto, formas e sentidos comuns dados ao trabalho terapêutico e espiritual, constituindo sínteses cosmológicas singulares.
A dupla implicação entre o terapêutico e o espiritual é uma característica recorrente nas diferentes situações observadas e na própria forma pela qual os protagonistas descrevem essas experiências. Uma dimensão religiosa está presente no trabalho terapêutico, assim como um sentido terapêutico é dado aos rituais (expressões como "o Daime é a cura" são exemplos disso). O cruzamento dessas duas dimensões não repousa apenas na combinação de técnicas e de procedimentos diferentes, mas sobretudo nos sentidos dados à experiência.

O site do Cefluris assim define o caderno de hinos conhecido como "Trabalho de Cura do Padrinho Sebastião", institucionalizado por este Centro:

Os trabalhos de cura compreendem diversos tipos: Trabalho de Estrela, Mesa Branca, São Miguel, Cruzes e Trabalhos para as Almas. No tempo do Mestre Irineu os trabalhos de cura eram basicamente de Concentração, já o Padrinho Sebastião acrescentou uma seleção de hinos que foi aos poucos ampliando-se até chegar na atual versão do nosso Hinário de Cura (...) Além dos hinos listados, podem ser cantados outros, sempre de acordo com as solicitações do próprio trabalho. Em alguns casos podem ser abertos outros hinários também empregados para cura como é o caso, principalmente, dos hinários de João Pedro, Tetê e dos Finados (Antônio Gomes, Maria Damião, Germano Guilherme, João Pereira). A corrente de cura exige total concentração e atenção no objetivo do trabalho para que os doentes possam se entregar com toda a confiança no destrinchamento espiritual de suas visões sobre a doença, a compreensão das usas causas kármicas e às transformações exigidas para que a cura possa ocorrer e se manter.
A abertura é normal: Oração, Consagração do Aposento, pequena concentração e ínicio do Hinário de Cura. É usada a farda azul, as pessoas permanecem sentadas em torno do Cruzeiro. A mesa é constituída normalmente por 7, 9, ou 12 pessoas, incluindo o presidente da mesa.
Os beneficiados não devem sentar diretamente na mesa, podendo ser acomodados em locais especiais (quarto de cura) sempre próximos à mesa de trabalho. Como é habitual, homens e mulheres sentam separadamente. Os médiuns curadores em serviço podem se movimentar na atenção aos doentes, sempre de acordo com o presidente da mesa. Além dos médiuns, devem permanecer na Estrela um fiscal de salão e um fiscal de terreiro, além do despachador de Santo Daime (não necessariamente o presidente da mesa). Devem ser evitados os instrumentos musicais, inclusive maracás, quando não há uma equipe treinada adequadamente. Os hinos devem ser bem cadenciados, intercalados com pausa, a critério do chefe da sessão.
A praxe é fazer o primeiro despacho do Santo Daime antes da Oração, outro após a concentração ou no ínicio do Hinário de Cura. E ainda um terceiro despacho opcional do hino "O Daime", do Padrinho Alfredo, em diante. Para o encerramento, canta-se o Cruzeirinho do Mestre Irineu, e procede-se as orações de encerramento, incluindo a Prece de Cáritas.
Caso seja necessário, o presidente da mesa deve solicitar que os doentes permaneçam na Estrela após o encerramento do trabalho – acompanhados por um fiscal – para melhor aproveitamento do benefício recebido. É apropriado que os locais onde acontecem os trabalhos de cura tenham acomodações apropriadas para receber os doentes.
Trabalhos de Estrela: Sob esta designação reúnem-se todos os trabalhos que são feitos na Casa de Estrela, que mesmo tendo uma característica marcante de cura tem também como finalidade a instrução e ensaio de hinários, abertura de banca, ou outro tipo de trabalhos como aqueles que reúnem jovens, homens ou mulheres das comunidades daimistas. Abre-se igualmente ao trabalho de cura e encerra-se com o Cruzeirinho do Mestre Irineu.

É bom observar que o chamado Trabalho de Estrela desde o seu surgimento requisitava a construção de um espaço ritual próprio, e trabalhos como estes, ditos de "desenvolvimento mediúnico" específico, deveriam estar reservados a esses espaços deixando-se o espaço das igrejas para os trabalhos doutrinários próprios como o "Trabalho de Cura" formulado pelo Padrinho Sebastião. O site Luz da Floresta nos elucida ainda:

Cremos que, apesar das diferenças de rituais, os ensinamentos doutrinários e o fenômeno da miração são convergentes em todas as igrejas e centros que trabalham com o Daime ou Vegetal de forma sacramental. As diferenças doutrinárias refletem diferentes contextos e demandas espirituais e devem ser entendidas e respeitadas. O Daime vem a ser a para nós um Acelerador, um Atalho Cármico. Através dele, os daimistas acreditam que qualquer um, que esteja sinceramente disposto a se transformar, poderá chegar, num tempo mais reduzido, ao conhecimento de Si-Mesmo e do Universo. O resultado desse trabalho espiritual interior não é apenas uma propriedade de um alcalóide que inibe uma enzima de um neuro-transmissor cerebral. Não é um fenômeno que pode ser induzido por experiências de laboratório. O trabalho espiritual envolve sistemática transformação pessoal e provas disso no dia a dia. O trabalho com o Santo Daime busca a nossa reunificação no Uno, no Todo e usa o corpo e a mente como uma ferramenta de trabalho. Essa perspectiva espiritual não reduz nossa capacidade de ajuste no mundo, mas pelo contrário a amplia. Depois de realizado o Sacramento do Santo Daime, o sentido maior da nossa irmandade é comungar com ele nas festas que chamamos Hinários.

Para baixar os hinos que compõem o "Trabalho de Cura do Padrinho Sebastião", gravados em estúdio com a equipe do Céu do Mapiá, com cadernos para impressão e cifras musicais, clique para download em:


Ritual em Brasília com Luiz Mendes e equipe do CEFLI, em foto de Lou Gold

Não deixem de ler: Recomendações Especiais para a Recepção de Iniciantes, por Eliseu Labigalini Jr. (labigalini@ig.com.br). Labigalini é médico-psiquiatra e pesquisador do Proad (Programa de Orientação e Assistência ao Dependente), da EPM - Escola Paulista de Medicina, UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, e membro do Núcleo de Cura e Saúde do Cefluris - Regional SP

9 comentários:

Alex disse...

Olá, irmão Eduardo

Já nos falamos no Orkut e no soulseek (que infelizmente não estou podendo usar por hora).
Aprecio muito este trabalho que está sendo feito aqui neste blog.
Sobre este último post, creio que você deve ter esquecido de colocar a tag para torna-lo link.

Abraços e parabéns pelo belo trabalho.


alex

Eduardo Bayer Neto disse...

Obrigado, Alex: só aproveito para incluir um post scriptum -
apesar do trabalho de cura do Cefluris eventualmente abrir com a Oração do Padrinho, aqui constam os hinos "Sol, Lua, Estrela" e "Devo Amar aquela luz", do Mestre. Normalmente esses hinos são usados para abrir trabalhos QUE SE ENCERREM COM O CRUZEIRINHO (é a tradição no Alto Santo, por exemplo, se forem cantar só Maria Damião e o Cruzeirinho, abrir com esses dois hinos de abertura do Mestre).
Como a gravação é do Mapiá, deve ter sido eventualidade da gravação, não sei. Entretanto numerei os hinos de abertura como 00a e 00b. O hino 01, "Pai Nosso", está "fritando" no começo (saltando os bits) mas esse ruído termina antes que comecem a cantar, pelo que peço que desculpem e compreendam, tá...
Grande abraço,
Eduardo

Anônimo disse...

A gravação da parte segunda do hinário de cura do Pd. Sebastião está muito boa, pena que hoje
(30/05/2008) não foi possível baixar a primeira parte.
Espero que o arquivo seja recarregado em breve ! ! !

Atenciosamente,

Yuri - Céu do Vale

Yuri disse...

A gravação da segunda parte do trabalho de cura do Pd. Sebastião está muito boa.
Pena que hoje (30/05/2008) não consegue-se fazer o download da primeira parte.
Espero que possa-se recarregar o arquivo.

Roberto disse...

Irmãos, peço que refaçam o link da primeira parte, pois estou precisando deste trabalho para uma enferma que não tem acesso às igrejas.
Alguém saberia de outro lugar para download? Obrigado! Fiquem na Fé!

Anônimo disse...

Olá Eduardo
Primeiramente gostaria de agradeçer por este trabalho maravilhoso que esta desenvolvendo com este blog...muito bom mesmo!!!
Percebi pelos comentários que a 1ª parte esta com problema no link...enfim, como os comentário datam de 2008 resolvi novamente pedir um socorro, gostaria muito de conseguir esta gravação em estudio mas o link da 1ª parte continua (ou novamente parou) sem funcionar...rs
Seria possível arrumar o link e recarregar o arquivo de novo.
Desde já agradeço.

Léa - Céu do Beija-flor

Anônimo disse...

Boa tarde,

o link para a primeira parte do hinário de cura está quebrado. O arquivo foi deletado.

Att,

Carlos

Santo Daime.Umbandaime.Ayahuasca disse...

Santo Daime é disciplina, respeito, amor fraterno! Santo Daime, Ajuda, Cura, Ensina, mas para isso é preciso ter merecimento!
www.umbandaime.com.br

M.a.r.i.a disse...

Segue o link com A PARTE 1

http://search.4shared.com/postDownload/u4mJ0Pys/Cura_-_Estdio_-_1.html