24/09/2007

Ciris Midam e os hinos da Madrinha Percília


Percília Matos da Silva, zeladora da obra do Mestre Irineu e gerente-geral dos hinários de sua Doutrina, começou a tomar Daime ainda muito criança, e se lembrava até do primeiro festejo de São João:

"Era 23 de junho de 1935, o Mestre organizou duas frentes de trabalho. Os homens foram tirar lenha para fogueira, as mulheres, preparar a ornamentação e uma grande ceia que o Mestre pediu para fazer no intervalo. Quando foi lá pelas seis horas da tarde, na Casa de dona Maria Damião, nós nos reunimos, rezamos um terço, tomamos Daime e fomos cantar até meia noite. Só tinha oito hinos! Um de Germano Guilherme, quatro do Mestre, dois de João Pereira e um de Maria Damião. Eram repetidos nessa mesma ordem por toda a noite. Quando foi meia noite ele deu um intervalo, já estava preparada a ceia numa grande mesa, quando ele mandou que nós cantássemos por três vezes aquele hino:

Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Graças a mamãe

Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus

Esse hino foi cantado de forma tão bonita, que nunca mais me esqueci... até hoje... chora emocionada dona Percília Matos. Foi depois disso que Irineu Serra, seguindo orientações de sua professora Clara, ordenou as datas para a realização dos hinários, formando o primeiro calendário de hinários oficiais da doutrina.

Além dessas datas de festejo oficial, era normal a realização das sessões de concentração aos sábados e das sessões de cura nas quartas-feiras. As datas evidenciavam os primeiros traços do cristianismo na Missão de Irineu Serra, segundo Jairo Carioca.

Como responsável que foi em dar forma escrita aos hinos formadores da Doutrina, ela se tornou a gerente-geral dos hinários, e assim tinha o encargo de passar a limpo os hinos recebidos, ou seja, corrigi-los. Hoje em dia pode ser difícil diferenciar os hinos "recebidos do Astral" dos hinos ditos "inventados", considerando-se talvez esses cânticos rituais mais como ferramentas humanas e menos como instruções divinas, mas até isso evidencia o quanto uma Doutrina originária do Mestre tem sofrido alterações por parte dos que declaram ser seus seguidores. Eu pessoalmente tive oportunidade de "passar a limpo" meu próprio caderno de hinário com a Madrinha Percília, e além de algumas palavras que ela modificou, recebi a explicação de que os hinos de um hinário devem guardar entre si uma relação progressiva de aprendizagem pessoal, uma ordem ascendente, e portanto hinos que repassam abordagens anteriores da própria pessoa (entendimento este muito subliminar, talvez) devem ser descartados, ou esquecidos, não-cultivados. E ela mencionou que o próprio João Pereira, cujo hinário é um dos principais do Mestre, teve trinta hinos suprimidos por este quando passados a limpo.

O hinário da Madrinha Percília se resume a quinze hinos, o que nos faz lembrar que o da Madrinha Rita são apenas vinte e cinco, o da Madrinha Peregrina são onze, e nem por isso são hinários desimportantes ou pouco fundamentais. Em termos de conteúdo, quanto aos hinários, às vezes "menos" hinos falam "mais", ou proporcionam melhor resultado prático, do que ser responsável por um conjunto de muitos hinos. Essa economia da expressão, entretanto, parece ser pouco observada na atualidade, quando sabemos há indivíduos que possuem várias centenas de hinos (às vezes até subdivididos em vários cadernos). No tempo do Mestre, e isso não quer dizer que em um "tempo atrasado" ou uma "época de vacas magras", receber um hino era não apenas uma responsabilidade espiritual mas também uma prova, e os que se diziam donos de hinos eram provados no Daime, sendo chamados pelo Mestre para puxarem e bailarem seus respectivos hinários "na força" dessa comunhão, sem cadernos de apoio, tirando apenas do âmago de sua alma a memória, a harmonia e o ritmo dos hinos, o que não dava margem à permanência de hinos "inventados" na irmandade. Quanto alguém passava pelo "vexame" de não conseguir apresentar devidamente a letra de um hino que declarara haver recebido, essa "linha da verdade" mostrava o quanto o desprendimento e a humildade são requisitos naturais do aprendizado espiritual, e atitudes de avidez, orgulho ou auto-promoção através dos hinos são pouco recomendáveis por induzirem (e em muitos casos conduzirem) ao erro ou à falsificação ideológica. O Daime é um misterioso professor que muitas vezes "dá corda para ferrar no anzol", por isso a grande preocupação dos antigos seguidores do Mestre em observar as recomendações que este deixou de viva voz. A própria Dona Percília se auto-questionava quanto aos seus hinos, como demonstra esse trecho de entrevista de Clodomir Monteiro com ela, a respeito do hino que a apresenta como Taio Ciris Midam:

Clodomir - Este hino a senhora recebeu dentro da miração?
Percília - Dentro da miração...eu estava com uma febre neste dia!...
Clodomir - E foi uma entidade que dizia para a senhora isto?
Percília - Eu ouvi, não vi, eu ouvi a música....e quando eu dei de mim eu já estava cantando.
Clodomir - Que a sra. era realmente esta entidade...
Percília - É...Taio Ciris Midam...
Clodomir - E todos no Alto Santo reconhecem que a senhora é realmente Ciris Midam...
Pedro - Pois o próprio Mestre registrou... passou a limpo o hino... seu Eu superior...
Percília - Sim, o meu Eu superior...então quer dizer que eu sou da mesma família...de Midam...né ?
C
lodomir - Tá ligado a outra metade dele...
Percília - É...é isso aí.
Clodomir - É isso aí, um é Jura, outra é Midam, o masculino e o feminino...
Percília -Foi passado a limpo com o Mestre...

A Madrinha Percília, ao ficar órfã de pai ainda menina, veio morar como filha do Mestre em sua casa. Estudou, formou-se professora e casou-se com Raimundo Gomes nos anos 40. O casamento não deu certo, e ela voltou a morar na casa do Mestre até que encontrou um novo companheiro na pessoa do Senhor Pedro. Após o falecimento do Mestre, apoiou o Padrinho Sebastião quando da criação do Cefluris, e realizou naquela igreja modificações do fardamento (gravatas azuis e sapatos brancos para a farda masculina) que antes o Mestre manifestara vontade de fazer. Três anos depois ela deixou o Cefluris, juntamente com Daniel Serra, Luiz Mendes e outros, que não aceitaram outras modificações rituais. Apesar de eventualmente participar, seja na igreja do Padrinho Tetéo, seja no Pronto-Socorro do Senhor Raimundo Lorêdo, nunca voltou a ocupar a condução dos trabalhos como antes. Foi em uma rara oportunidade que a presenciei na igreja do Senhor Luiz Mendes acompanhando um trabalho de 6 de julho onde o hinário do Mestre foi cantado sem bailado, integralmente (todos os hinos, mesmo os especiais), na mesma formação de filas em pé na velação do ataúde que foi feita em 1971. Ela declarava o que sabia e o que pensava com toda sua veemência (leia o texto completo aqui):

Ninguém pense que aprendeu. Quem quiser aprender, se dedique ao Daime. Se prepare e tome. Não vou dizer que todos possam alcançar porque "nem todos estão na graça", como diz aquele hino do Seu Sebastião Mota.

O Mestre aprendeu e doutrinou o mundo inteiro. Por isso eu digo: todos têm vontade de alcançar, mas nem todos estão na graça... É preciso se conformar com o tanto que Deus lhe deu. Aqueles que tiverem o espírito evoluído de outras encarnações estão mais próximos. Se dedique ao Daime, que lá ele está. Chame o Mestre com amor.

Espiritualmente, o Mestre é uma santidade que comanda o mundo inteiro. Ele tem todo poder. E hoje, 21 anos depois, é a mesma coisa. É como se ele estivesse aqui no nosso meio. Não que eu esteja vendo, mas, pela intuição, a gente sente.

Meu maior prazer é ver esse trabalho ficar firme, direitinho, como o Mestre quer, não como ele queria, como ele quer, pois eu não considero que o Mestre está ausente. Tudo que nós fizermos dentro desse trabalho tem que ser com ele, tem de pedir licença a ele, porque ele é o dono, ele é o comandante e o chefe geral da missão. Portanto tem que render obediência a ele. Eu não permito é cada um fazendo do seu modo. Foi uma das coisas que ele pediu. No dia 30 de junho de 1971, poucos dias antes do seu passamento, houve uma concentração em benefício dele. Quando terminou, ele disse assim:

- Hoje foi que eu recebi a minha cadeira de presidente; cheguei lá no astral, tinha um salão, a mesa posta, e a cadeira da cabeceira estava vazia, a minha mãe chegou e mandou que eu tomasse conta da cadeira.

- De hoje em diante, você é o chefe geral desta missão, disse ela. Queira ou não queira, no céu, na terra e no mar, o chefe é você.

Ora, isso depois de quantos e quantos anos de trabalho? E ele disse: - Eu estou entregando esse trabalho ao Leôncio; ele não é o chefe, fica como representante desse trabalho. Agora uma coisa eu digo, ninguém queira ser chefe, se unam e vão trabalhar. Foi nesse dia que ele aprendeu que quando se formar a mesa para abrir um trabalho, é para deixar a cadeira dele vazia, pois chamando, ele viria ensinar.

- Mas ninguém queira ser chefe, e não inventem moda dentro desse trabalho, ele falou.

Por isso eu me sinto mal quando eu chego num serviço que não está certo. Eu não me sinto bem de jeito nenhum. Se eu pudesse fazer uma circular a todos esses centros de Daime eu diria: nós não podemos mudar o ritual, nós temos de seguir os ensinos conforme eles mandam. Outro dia eu fui em um trabalho em um centro aqui perto de Rio Branco e não gostei. Já fui mesmo a paisana, porque eu não sabia como estava a organização lá, parece que eu estava adivinhando. As filas desarrumadas, sem um destacamento que fosse responsável pela organização das filas, homens com a camisa para fora da calça, com a mão no bolso, outros com o braço solto, jogando o braço para lá e para cá, e o que é pior: a extinção do maracá. O maracá é que ajuda a marcar o passo do baile. Todo mundo com caderno na mão, nunca vi isso, alguns tocando maracá para cima, sem bater na mão. E o caderno - se estivessem ao menos lendo e cantando, mas tinha muitos que só olhavam e ficavam de boca fechada. Tá fora do ritmo, não é mesmo? E o ritmo do canto, da música? Cada hora era de um jeito, ora acelerando, ora devagar demais, e o ritmo deve ser incessante, firme. Eu perguntei o por quê do pessoal não usar o maracá, me disseram: "Ah! Porque eles não têm." "Mas o maracá é uma coisa muito fácil de fazer, todo mundo pode ter." "Ah! Mas eles não aprendem." Por que não aprendem? Ora, a criança vai a aula, no começo ela não sabe, depois vai aprendendo, uma semana, duas, faz o primeiro grau, faz o segundo, vai se evoluindo, segue carreira. Então, por que não aprende? Por que não tem um instrutor, uma pessoa que instrua, que ensine como é. Agora deixar cada um chegar e fazer como quiser, não pode. Então, se ele deixou para todo mundo usar o maracá, é para usar maracá, não é? Não é caderno, ele não deixou ninguém usando caderno. Até a saída dele, não existia esse negócio de caderno na mão no hinário, de jeito nenhum, todo mundo aprendia corretamente e na hora já sabia, estudava em casa, mas na hora do trabalho, ninguém levava caderno. Como eu não faço parte da diretoria de lá, não falei nada, mas essa responsabilidade pesa nos meus ombros, pois o Mestre me disse: "Onde você for que não estiver certo, você tem que corrigir." No hinário, cada fila tem de ter o "pelotão", a pessoa responsável pela fila. Quando às vezes uma pessoa passa mal, por um momento, por causa das suas culpas, sei lá, tem que ter o fiscal para amparar, homem para homens, mulher para mulheres. O fardado só tem direito de sair por três hinos, no máximo. O ensaio é muito importante, pois é ali que a pessoa vai aprender, para quando chegar o trabalho oficial, todos estarem sabendo. Nosso trabalho é como um quartel, todos iguais. O principal na atitude do fardado é a obediência, cada um prestar o seu serviço com o máximo de obediência, cada um tem a sua posição, o seu posto de serviço, portanto, tem de assumir com muita dedicação e obediência. Tem muita coisa boa dentro desse hinário do Cruzeiro, é preciso é compreender, muitas pessoas cantam, mas a compreensão fica tão adversa... E não tem esse negócio de mistura de linha não, de atuação, nunca vi o Mestre se alterando em nada.

Compreender essas diferenças de fundamento da experiência religiosa com o Daime, de "sair para o invisível" como configurado pelo Mestre Irineu (cujo trabalho expressava mais uma base na cultura andina, ameríndia) ou de "incorporar entidades" (como nas culturas africanas), é uma tarefa árdua para os seguidores do Mestre Irineu. Eu pessoalmente compreendo que ambos sentidos da jornada (para fora e para dentro) são importantes e não excluem um ao outro, apenas deve-se observar para cada um o entorno ritual respectivo, e respeitar as especificidades dos participantes dentro do trabalho ritual construtor de uma coletividade própria.

Para obter os arquivos wma do hinário da Madrinha Percília, juntamente com seu caderno para impressão, faça o download clicando em:

12/09/2007

São Francisco bem louvado na Vila Carneiro

São Francisco
(hino 06 do Padrinho Nonato, ofertado à sua esposa a Madrinha Graça)

Estou aqui, estou aqui, estou aqui
Implorando a meu Salvador
Que me dê a santa saúde
Por vosso divino amor

Oh! Minha Mãe aqui estou em vossos pés
Implorando para me libertar
Para quando chegar o dia
Eu poder me apresentar

Me apresentar perante a meu Pai
Com firmeza e pureza em minha alma
Pedindo sempre
Vossa divina calma

Esta calma é verdade e harmonia
Que resplandece em nós todo o dia
Para compreendermos que somos filhos
Da Sempre Virgem Maria

Oh! Meu Pai, Oh! Que dor no coração
De ver tanta ingratidão
Dentro deste jardim
Que forma esta união

Mas vou seguindo é com fé e com amor
Na doutrina do meu Salvador
Que dele eu recebi
O meu prêmio de valor

Oh! Meu Pai a Vós estou agradecendo
Por tudo isto que estou entendendo
Mas sempre peço a Vós
Para eu ir compreendendo

Compreendendo as lições do professor
E seguindo com esperança no Senhor
Que Vós é quem nos livra
De todos esses terrores

Sinto dor, sinto dor, eu sinto dor
Quando lembro deste andor
Que me relembra tudo
Mas vigora o amor

Mas é preciso se humilhar e consagrar
Para poder enxergar
Essa grande batalha
Que temos que atravessar

Oh! meu Pai aqui estou arrependido
Por ter tanto lhe ofendido
Mas sempre vos imploro
Que eu não seja perdido

São Francisco ele vai se apresentar
Me dando força perante este altar
Me reconciliando e sabendo
Que somos todos iguais

Estou aqui estou vendo clarear
Sentindo fogo e meu corpo balançar
Ouvindo a voz do céu
Que me faz despertar.

Raimundo Nonato Teixeira de Souza, filho caçula do Padrinho Wilson Carneiro de Souza e da Madrinha Zilda Teixeira, nasceu em Tarauacá, município do estado do Acre, em 14 de Julho de 1949. Iniciou seus trabalhos no Santo Daime em 1962. No ano de 1990 passou à administração da Colônia Cinco Mil, cargo que ocupou por sete anos, até pouco antes da passagem de seu pai. Hoje, desenvolve seus trabalhos com o Santo Daime na Vila Carneiro, vizinho à Colônia Cinco Mil, zelando pelo Pronto Socorro de Cura Raimundo Irineu Serra e é um grande divulgador dos preceitos doutrinários deixados pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e o Padrinho Sebastião Mota de Melo. Atualmente é vice-presidente do Pronto-Socorro dando continuidade aos trabalhos realizados por seu pai Wilson Carneiro de Souza. Contemporâneo que foi do Padrinho Alfredo Gregório desde antes da criação do Cefluris, coube ao Padrinho Nonato, em uma forte concentração nos primeiros anos da igreja da Cinco Mil, a chamá-lo "Salomão": pelos dons da inteligência e justiça que este encarnava. Apesar de haver se retirado do Cefluris por uma questão de autonomia, a "Aliança Estelar" de ambos com certeza continua a refulgir.

Publicamos já neste blog uma parte do hinário do Padrinho Nonato (veja aqui) falando dessa sua especial devoção a São Francisco, expressa também na realização dos festejos em comemoração do Santo, 4 de Outubro, cantando este hinário. Agora, numa especial cortesia do irmão Eduardo Sampaio, do Céu do Ceará, divulgamos este hinário completo, com caderno, gravado em 14 de julho deste ano na inauguração da nova sede do Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra, na chamada Vila Carneiro, na Estrada da Colônia Cinco Mil.


Para baixar as mp3 do Hinário "O Peregrino", obtenha o download clicando em:


São Francisco instrui o Lobo (1911, Carl Weidemeyer-Worpswede). Xilogravura. Die Blümlein des heiligen Franziskus von Assisi. A compreensão profunda e empática que São Francisco tinha do mundo natural o habilitava a comunicar-se com os animais.

02/09/2007

O Grande Estudo de Francisco Corrente

."New Jerusalem Canopy", arte de Spencer Williams

"Como é que o Mestre vivia com o povo dele? Era plantando arroz, plantando feijão, plantando macaxeira, plantando cana, plantando banana, para ter a fartura natural. Quer dizer: que essa aqui é a riqueza que o Mestre deixou na nossa mão, foi essa tradição, esse conhecimento de trabalhar uma terra e da terra tirar o pão de cada dia. (...) o Santo Daime, enquanto terapêutica alternativa, se realiza, a olhos vistos, não apenas no decorrer de suas sessões e hinários festejados, mas também no esforço do trabalho com a terra, na enxada, no terçado, no machado, na pá e no aguador, para assim se receber as energias positivas e eliminar positivamente as negativas, regidos pelo movimento do Sol, da Lua e das Estrelas, sendo essa a sabedoria regeneradora para curar os homens das cidades ao reencontrarem sua harmonia profunda com a Mãe Natureza, e assim serem mais felizes. Este é o exemplo do Céu do Mapiá."

Essas palavras de Francisco Corrente da Silva fazem parte da entrevista que realizei com ele para publicar no Suplemento Especial do jornal acreano "O Rio Branco" em comemoração ao Centenário do Mestre, na terça-feira 15 de dezembro de 1992, com o título "Herança do Mestre - Tradição Agrícola convive com Daimistas". Demonstram a essência do pensamento de Sebastião Mota com relação à busca de autosubsistência de seu povo na floresta amazônica, que nos primeiros tempos do Mapiá era desenvolvida através de trabalhos agrícolas em regime de mutirão que afirmavam a força do relacionamento comunitário. E essa com certeza é uma característica notável na pessoa do "Tio Chiquinho", o qual vinte anos atrás me recebeu na Colônia Cinco Mil, que na época dirigia, e me iniciou no Daime e na Cultura da Ayahuasca em si: até minha primeira calça de farda azul, boca-de-sino, era dele e me foi presenteada. Na mesma reportagem de 1992 eu assim me referi a ele:

"Mesmo para quem não o conhece, Francisco Corrente é uma personalidade que desperta forte empatia no primeiro contato. Verdadeiro representante da cultura amazônica da ayahuasca, na síntese encontrada entre o xamanismo indígena, as tradições esotéricas dos novos-cristãos que colonizaram o Nordeste brasileiro, e a umbanda, o tio Chiquinho, como lhe chamam seus afilhados, é, aos 44 anos de idade, um espelho da Doutrina do Santo Daime".

Ele nasceu em Sena Madureira, Estado do Acre, no dia 20 de julho de 1948, filho do piauiense Manoel Corrente e sua esposa Dona Maria. No Dia de Todos os Santos de 1971, em Rio Branco, fardou-se, e se conta que neste dia teve um "passamento" dos mais formidáveis. Aprimorou-se ajudando nos feitios de Daime de eméritos irmãos da casa como Raimundo Gomes, Francisco Grangeiro e Sebastião Mota, e juntamente com seu pai e o restante da família acompanhou a este último quando da criação da igreja da Colônia Cinco Mil. Aí casou-se com Iolanda Braga, fardada do Mestre e cunhada da filha deste, Marta Serra, e tiveram a filha Janaína. Acompanhou o Padrinho Sebastião no Rio do Ouro e no Mapiá, mas a pedido deste se encarregou da gerência da Cinco Mil enquanto o Padrinho Wilson voltava a ocupar a direção dos trabalhos espirituais da antiga igreja-matriz do Centro. Caboclo guerreiro como seu pai, o Padrinho Corrente, a partir dos anos 90 passou para a Fazenda São Sebastião, na Boca do Mapiá, coordenando vários feitios nas áreas do Rio Purus. Verdadeiro capitão-de-mato da Doutrina, seu hinário pode parecer pequeno comparado com tantos outros, com muitos hinos curtos de apenas duas estrofes que se podem repetir à vontade, mas é exatamente por essa "concentração" energética que resulta em um trabalho de muita força, muita luz, e muito estudo, seja bailado no salão, em batições de jagube nos feitios ou em sessões especiais de cura.

"O Signo do Teu Estudo", título do primeiro hino, hoje dá nome ao seu hinário. Talvez seja uma necessidade que as pessoas sentem de que os hinários tenham títulos, quando a princípio apenas alguns hinos possuiam nome específico (por exemplo, o "Unaqui", o "Leão Branco", o "Flor de Jagube" do Mestre Irineu). No caso do caderno de hinário do Padrinho Francisco Corrente, talvez o "signo" ainda não esteja develado, e o nome do caderno ainda virá para ele. O fato é que este seu hinário é mesmo um grande estudo, não apenas para ele próprio que na força do Daime recebeu seus hinos, mas para toda a irmandade ligada ao Padrinho Sebastião. Seu último hino diz:

Aqui cheguei, aqui cheguei
Aqui cheguei e vim me apresentar
Aqui cheguei, aqui cheguei
Aqui cheguei, eu vim me matricular

O Pai Eterno e a Virgem Mãe
E os professores que estão a ensinar
Que o mistério deste segredo
Está nesta escola para todos estudar.

A gravação que apresentamos é de excelente qualidade, com destaque para o rico instrumental e o timbre particular do dono do hinário. Para baixar os 34 hinos do caderno "O Signo do Teu Estudo", em formato wma, com caderno para impressão e cifras musicais, clique em:

Wilton George, dirigente do CHAVE de São Pedro, junto do nosso "Tio Chiquinho".

30/08/2007

O "Caboclo Guerreiro" do Padrinho Corrente

Padrinhos Sebastião e Corrente em foto(s) de Marco Gracie Imperial

O velho Manoel Corrente contava que havia entrado para o Cefluris por ordem do próprio Presidente do Ciclu, Leôncio Gomes, e da viúva do Mestre, Madrinha Peregrina. Nascido em Corrente, no Piauí, e vindo para os sertões do Rio Iaco, no Acre, na década de 1930, para trabalhar com a extração do látex da seringa, ele conheceu pessoalmente o Mestre Irineu mas não chegou a tomar Daime com ele: foi apenas depois do filho Francisco começar a participar do Alto Santo, em novembro de 1971, já quando Leôncio Gomes ocupava a direção dos trabalhos, que Manoel Corrente ingressou nas fileiras do centro. Em 1974, após a separação havida por parte dos fundadores do Cefluris, ele foi ter com os dirigentes do Alto Santo para pedir aconselhamento e eles recomendaram que ele e sua família ficasse ao lado de Sebastião Mota de Melo para apoiá-lo em seus trabalhos. Assim, a família Corrente, qual verdadeiro clã conjuntamente com as famílias Mota e Carneiro, passou a ser um dos alicerces espirituais do Cefluris.

Além dos filhos (Francisca, Dalvina, Albertina, Francisco, João, José, Maria e Raimunda) com a esposa Dona Maria, Manoel Corrente foi também pai adotivo de duas crianças mais velhas que haviam perdido a mãe tragicamente na vida do seringal, o que demonstra a prevalência de seu coração paternal muito antes de conhecer a Doutrina. No Cefluris, quando o pessoal do Padrinho Sebastião foi abrir sua colocação no Seringal Rio do Ouro, foi comandante da comunidade na Colônia Cinco Mil antes desta passar para a direção do Padrinho Wilson. Depois disso foi um dos fundadores do Mapiá, e nos anos noventa, havendo falecido o Padrinho Sebastião, ficou como seu representante perante a irmandade, só não viajando o tanto que gostaria pelos demais centros por motivo da idade avançada que fazia dele o mais velho morador do Céu do Mapiá.

Em homenagem ao Padrinho Corrente, assim escreveu Antoine Yan Monory:

Ele era uma pessoa de disciplina, que não gostava de ver as pessoas brincar com a espiritualidade, sendo que ele era um esteio espiritual importante da Corrente de Luz da qual participava. Temos uma lembrança querida deste nosso velho, sendo que foi ele, quando das primeiras vezes que nos deparamos com o Sagrado Feitio do Daime, que nos ensinou a cuidar das folhas da Rainha, com todo carinho e atenção "como há de ser". Era lavando, várias lavagens, fiscalizando de alguma forma a catação das mulheres, na força das águas doces, sob a luz do Sol ou do luar, e a luz do Divino Mestre... Foi ele quem zelou mesmo das folhas, durante muitos anos, pondo-as aconchegadas nas folhas de bananeira, as regando sempre, por vezes escondidas em recantos discretos sob a sombra fresca da verde e amorosa floresta. Isto há de ser lembrado!...

Ele falava uma coisa muito boa para nós lembrarmos agora, sendo quase um hai-kai taoísta (uma frase ou idéia curta, de caráter enigmático, tendo um significado espiritual para destrinchar), de que QUEM ESTÁ CERTO ESTÁ ERRADO, E QUEM ESTÁ ERRADO ESTÁ CERTO.
Podemos relacionar isto com a temática das normas de ritual, ou das formas "certas" ou apropriadas de agir de modo geral, e assim às vezes uma pessoa parece estar "errada" mas está certa porque está seguindo o seu coração, a sua intuição, o seu próprio destino...

Nos últimos tempos da sua vida, estando doente materialmente, ele pode visitar e receber ajuda da casa da Irmã de Caridade Francisca Gabriel, como é chamada, e assim comprovando o valor de uns para com os outros... Ele gostou de lá, e falou que o Mestre era único!


Este humilde "Mestre", na sua Linha, estava justamente lutando para a sua saúde, e ele não queria e não achava que era o momento de partir ainda, até pouco tempo antes do seu desencarnar. Eram desta forma sempre realizados muitos trabalhos de cura e atendimentos para ele. Porém, dentro desta luta, ele chegou num ponto em que decidiu ir mesmo...
Foi antes do São José de 1996, e ele foi chamando as pessoas, uma por uma, falando que era para parar de rezar para ele ficar, que era a sua hora... Mas não foi neste dia ainda, de São José, e ele até teve uma melhora. Passou alguns dias ele recolhido, como sempre bem lúcido em todos estes tempos, comunicando as suas últimas diretrizes e mensagens de Luz.

Chegou o dia de Sábado, ele olhou para a luz do dia e falou: - "Que dia bonito, eu quero ir é hoje!...", e estava dando um céu azul especial, bonito mesmo. Ele ficou olhando o tempo todo pela janela. Chegou uma pessoa próxima, se atuou, começou a cantar, e ele começou a cantar também os seus hinos. Cantou o "Caboclo Guerreiro", e ele foi assim mesmo, cantando com força e com fé, na sua passagem de Mestre (se fala que na mesma hora alguém soltou um foguete na vila...). Esta é digna de ser comparada às passagens dos Mestres orientais, que desencarnam de forma consciente, em "sámadhi", ou êxtase místico... sendo no caso do Daime, este mesmo "sámadhi" alcançado através dos hinos. Esta passagem é própria também dos "homens de poder", como os anciãos, os velhos xamãs das tribos norte-americanas, por exemplo, os quais sabem e podem escolher o melhor dia para atender o chamado do "mundo dos espíritos".


Este nobre homem nasceu o dia de São Miguel, em 1911, e desencarnou num Sábado, dia também de São Miguel na semana, o dia 23 de Março, dentro do período da Quaresma. "

Maria Alice Freire, responsável pela casa de cura que leva o nome do Padrinho Corrente na Vila Céu do Mapiá, relata a participação fundamental do "Vô Corrente" na abertura dos trabalhos de umbanda no âmbito do Cefluris:

Quando eu cheguei no Mapiá, que o Padrinho Sebastião mandou eu ir para a mata, abrir uma clareira lá junto com o Vô Corrente, para poder chamar os caboclos para curar os doentes, aquilo me surpreendeu, porque eu pensava... Não só pensava, como disse a ele: "Mas, Padrinho, para que o senhor precisa de caboclo? O senhor já tem tudo: já tem a Luz, a Verdade, a Justiça, a Sabedoria, o Amor, tudo na sua mão". Ele disse: "Mas eu preciso dos caboclos, minha filha! Porque meu povo não tem capacidade de acompanhar a luz do Daime e os caboclos é que vão me ajudar a limpar o canal do meu povo, para ele poder acompanhar a luz do Daime". Então, essa clareza ele me deu da dimensão exata daquele trabalho – conforme foi que os caboclos fizeram comigo: essa limpeza, esse aparelhamento, essa compreensão, essa caridade. Tudo isso que é um bê-a-bá muito simples: a pessoa se entregar ali na mão daquela entidade, para ela vir aparelhar e fazer a caridade. O trabalho com o pensamento, tudo isso é o bê-a-bá da história: a fé, a entrega, a caridade; a humildade que é preciso ter, porque se a pessoa se engrandece, aparelha outras coisas que não são os guias de cura, que são aqueles trapaceiros, aqueles embusteiros que vêm. A pessoa já tendo aquela instrução de base, quando entra no Daime, já tem mais condições no plano material dela para poder lidar com tudo aquilo. O Padrinho também tinha isso, também se desenvolveu numa banca espírita, já trabalhava com os guias dele de cura antes de chegar no Daime – então ele tinha essa clareza, de como isso facilita a vida da pessoa dentro do Daime. Muitas vezes a pessoa vai dentro do Daime se conhecer, vai saber que já tem relação com aquelas falanges e entidades de outras vidas, então já traz de outro tempo aquela missão. Tudo o Daime vai nos ensinar: a aparelharmos o nosso Eu Verdadeiro, o nosso Eu Superior, que é o principal e único verdadeiro aparelhamento que devemos conservar para sempre, né? O resto, são tudo alianças espirituais.

São os seguintes os hinos ofertados ao Padrinho Corrente que compõem o caderno intitulado "Caboclo Guerreiro" narrando um pouco da trajetória espiritual desse bravo guerreiro, trabalhador das matas, chamado Manoel Corrente da Silva:

01 - Saí por uma Estrada (Graça Nascimento)
02 - Peço e Rogo (Madrinha Maria Corrente)
03 - Balança do Julgamento (Regina Pereira)
04 - Beija-flor (Ângela Pimenta)
05 - Rainha da Luz (Luiz Lopes)
06 - Caboclo Guerreiro (Eduardo Ferreira)
07 - Santo Deus (José Kleuber)
08 - O Relho (Nonato Teixeira)
09 - Eu Peço (Isabela Coutinho)
10 - Com Jesus (Paulo Roberto)
11 - Minha História (Alex Polari)
12 - Grande Estudo (Vera Gall)
13 - Peço Força a meu Pai (Maria Cristina Santos)
14 - Vim Apurar (Beto)
15 - Comparecer (Fausto)
16 - Vamos Agradecer (Edimar)
17 - Corrente (Baixinha)
18 - Como eu amo o meu Padrinho (Baixinha)
19 - Caboclo Estrada Frente (Maria Alice)
20 - Sou o Daime (Neiva)
21 - Construção do Templo (Vera Fróes)
22 - Chuva Divina (Bernardo Albino)
23 - Alerta Geral (Joaquim Carvalho)
24 - Caboclo Afirma o Ponto (Cecília)
25 - Linha de Umbanda (Vera Apolônio)
26 - Bom Curador (Susana)
27 - Estrela do Oriente (Beatriz Vidal)
28 - São Miguel (Cristina Motta)
29 - Cruzeiro Iluminado (Eduardo Gabrich)
30 - Viva o Padrinho (Pedro Malheiros)
31 - Silêncio (Manoel Paulo)
32 - Luz do Espírito Santo (Noêmia Cotrim)
33 - Guerreiros do Amor (Joana Palhares)
34 - Caboclo Bom (Elisabete)
35 - Vou Chamar (Nonato Teixeira)
36 - O Velho (Alessandra)
37 - Festa de São Miguel (Maria Brilhante)
38 - Mais Um (Padrinho Alfredo)
39 - O Plantar e Colher (Júlio César)
40 - Estrela Guia (Luciana Rocha)
41 - Grande Rei (Luiz Roque)
42 - Irmãos em Cristo (Gilda Guilhon)
43 - No Infinito do Espaço (Sônia Palhares)
44 - É Pra Você (Conceição Carvalho)
45 - Quebra Demanda (Conceição Carvalho)

Para baixar as mp3 do hinário "Caboclo Guerreiro", em gravação especial na Vila Céu do Mapiá, clique em:


Conheça também a obra da Santa Casa de Cura Padrinho Manoel Corrente, e seja mais um colaborador!...

22/08/2007

"O Peregrino" na residência do Padrinho Nonato

Nonato Teixeira no velório do Mestre Irineu

São Francisco de Assis, fundador da ordem religiosa dos franciscanos, nasceu na cidade de Assis, na península itálica, em 1182 e faleceu a 4 de outubro de 1226. Filho do rico comerciante Pedro Bernardone e Joana Picá de Boulermont, foi batizado a princípio com o nome João (Giovanni), mas Bernardone resolveu mudar o nome do filho para Francisco rendendo homenagem à França que o enriquecera e lhe despertava a sede de nobreza. Francisco associou-se aos negócios paternos, mas com sonhos de explorações cavaleirescas e revolucionárias, luta contra a Prússia e, depois (1206), dedicou-se inteiramente ao serviço de Deus. Viveu , a princípio, como eremita, mas rodeou-se, depois, (1208/1209), de discípulos decididos a viver com ele na pobreza evangélica. Em 1210, o Papa Inocêncio III aprovou a regra franciscana. Em 1212, com Santa Clara, Francisco fundou a Ordem das Clarissas. Doente, assistiu ao IV Concílio de Latrão e obteve a colocação de uma indulgência especial, dita da "Porciúncula". Em 1220 regressa do Egito a fim de providências modificações introduzidas na ordem por seus vigários; pediu demissão do ministério geral, mas continuou sua prédica fraternista. Em 1221, fundou a Ordem Terceira Franciscana: modificou sua regra duas vezes a pedido de Roma. Em 1224, recebeu em Alverne os estigmas do Cristo. Já moribundo, compôs o poema "Cântico ao Sol". Tendo vivido uma existência de profunda compreensão à natureza, a Igreja Católica, menos de dois anos após seu falecimento resolveu canonizá-lo como São Francisco de Assis. No meio do sertão cearense, em Canindé, recebeu a consagração popular de São Francisco das Chagas de Canindé, festejado a 4 de outubro.

Maria Helena Cardoso nos conta um pouco sobre essa rota dos peregrinos nordestinos: Canindé, no meio do sertão do Ceará, é um centro regional de peregrinação, onde está o santuário-basílica de São Francisco das Chagas. O culto remota ao início do século XVIII, quando os franciscanos, em suas viagens de apostolado pelo Norte e Nordeste, agremiaram os fiéis na Ordem Terceira de São Francisco das Chagas do Recife. Por volta de 1775, foi principiada a construção de uma igreja, à margem do Rio Canindé, cujas obras demoraram até 1796, quando se inaugurou o Santuário com a chegada da imagem do padroeiro. Em 1817 é criada a paróquia. Em 1898 o bispo de Fortaleza confia o santuário aos capuchinhos que levantaram o atual templo de 1910 a 1915. Os franciscanos da província de Santo Antônio assumem a administração em 1923, continuando até o presente. O santuário é elevado à Basílica (1925/1926). O tempo atual de romarias se estende de agosto até fins de dezembro, sendo estas especialmente numerosas durante a novena de São Francisco e preparação à festa do padroeiro, a 4 de outubro. Costumes peregrinos de origem remota ainda perduram nesse santuário, como o uso de mortalha como hábito franciscano para os romeiros e também o sacrifício de cabelo como símbolo de fecundidade-costume que remonta aos nossos antigos índios, tendo sido aos poucos assimilado e cristianizado. Durante a novena e festa, os peregrinos chegam a 35 mil por dia, e realiza-se todas as tardes com o painel do santo taumaturgo; muitos romeiros cumprem suas promessas nessa ocasião, carregando, por exemplo, pedras sobre a cabeça, andando descalços e de joelhos, com cruzes ao ombro, caminhadas de centenas de quilômetros, etc. O número de caminhões, durante os dez dias da novena, chega a 85 mil, fora outros meios de transporte.

É durante todo o ano que o município de Canindé recebe devotos de São Francisco de Assis. Uns vão demonstrar a gratidão pelas graças alcançadas. Outros estão ali pela primeira vez, fazendo seus pedidos, além daqueles que estão lá mais uma vez em busca de uma nova graça. No entanto, é em outubro - mês dedicado ao santo - que a ida e vinda de fiéis realmente ganha força. Nesse período, a cidade recebe cerca de dois milhões de visitantes, cearenses e de outros estados, muitos dos quais fazendo a travessia a pé. Por todo o dia, as celebrações dividem-se entre a Basílica de São Francisco das Chagas, a igreja de Nossa Senhora das Dores e a Cristo Rei. Vale destacar que a devoção do público fez com que o Vaticano reconhecesse a igreja como Basílica, status reservado apenas aos principais destinos de peregrinos cristãos do mundo.

Em 1978, a fim de pagar uma promessa ao Santo de devoção, o padrinho Wilson Carneiro de Souza e sua esposa a madrinha Zilda Teixeira, viajaram ao Canindé, no Ceará. Também visitaram os parentes do Padrinho Wilson na antiga Freguesia de Riacho do Sangue, hoje Jaguaretama, terra natal também do ilustre médico introdutor do espiritismo kardecista no Brasil, Adolfo Bezerra de Menezes. Dessa viagem foi que, em sua passagem por Belém do Pará, o casal recebeu em adoção o neto George Washington que lá nascera.

Essa devoção dos pais ao São Francisco das Chagas foi certamente determinante para que, anos mais tarde, seu filho caçula, Raimundo Nonato (nascido em Tarauacá - Acre, em 14 de Julho de 1949) desse a seu hinário o nome de "O Peregrino". Conta o site União Estrela Guia que o Padrinho Nonato iniciou seus trabalhos no Santo Daime com a idade de 13 anos, havendo convivido com o Mestre Irineu por mais de 9 anos (de 1962 a 1971). Comerciante, assim como o pai, o Padrinho Nonato se casou bem jovem com Maria das Graças Nascimento, a Madrinha Graça, já sendo homem casado e pai na época do falecimento do Mestre. Problemas de saúde o levaram a ir residir próximo aos pais na Colônia Cinco Mil, depois que estes se mudaram para lá, e na força do Santo Daime de que se tornou feitor, e amparado pela força resplandecente de seu hinário, no ano de 1990 passou à administração da Colônia, cargo que ocupou por 7 anos, até pouco antes da passagem de seu pai. Hoje, desenvolve seus trabalhos com o Santo Daime na "Vila Carneiro", na Estrada da Colônia Cinco Mil, dirigindo o Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra que também abastece diversos centros daimistas fora do Acre ligados aos preceitos doutrinários deixados pelo Mestre Irineu e o Padrinho Sebastião.

A presente gravação é uma "lembrança" histórica - no dia 14 de julho de 1988, quando participei do hinário do Padrinho Nonato pela primeira vez, registrei alguns hinos em um cassete de 90 minutos que inclui os hinos do número 36 ao 69. Os instrumentos entram a partir do hino 53, ofertado à Regina Pereira, e se destaca o acordeon conduzido por Dionísio Viegas. A gravação é doméstica pois o hinário foi cantado na própria residência do casal Nonato e Graça, e os filhos ainda crianças cantam forte, e há uma curiosidade: se pode ouvir também o Padrinho Wilson, que estava dirigindo a sessão, em um determinado momento pedir para fecharem as janelas. Em breve iremos publicar "O Peregrino" integralmente, pois Eduardo Sampaio, da Igreja Céu do Ceará, também gravou os festejos de inauguração do Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra em Rio Branco no último 14 de julho, e já se prontificou a veiculá-lo através de nosso blog.

Para fazer o download de "O Peregrino", de Raimundo Nonato Teixeira de Souza, clique em:


17/08/2007

Presentes do Padrinho Wilson: "Chave de Ouro"

Padrinho Wilson e seu neto Miraci

Em 1988, durante as realizações do vídeo-documentário "São João na Terra" na Colônia Cinco Mil, o Padrinho Wilson Carneiro relatou como passou a comandante da primeira igreja-matriz do Cefluris:

Quando foi a 15 de fevereiro de 1981 eu cheguei [para morar] na Cinco Mil. Aí eu fiquei lá na casa de um fazendeiro, na casa do meu genro. Fiquei, e quando foi no fim de junho ele me chamou para tomar conta da igreja. Eu disse: Padrinho, eu não quero ficar de diretor da igreja, eu não tenho capacidade disso. "Mas é o senhor o escolhido, o senhor não tem pra onde correr". Padrinho, mas eu reconheço de mim que não tenho capacidade de dirigir um centro espírita. "Aprende como eu aprendi, mas não tem pra onde correr: o escolhido é o senhor". Aí eu fui com o Alfredo, que é o comandante geral da Doutrina, e disse: Alfredo, o Padrinho quer que eu fique como dirigente da igreja, eu conheço de mim que não tenho capacidade de dirigir um centro espírita. "Padrinho, mas é o senhor o escolhido, não adianta correr que o escolhido é o senhor. Olha, papai pegou no timão, eu peguei, agora é o senhor". (...) Aí nisso quando eles me entregaram a chave da igreja, o Alfredo me entregou um hino que fala "Agora tu recebes esta chave de ouro". Foi o hino que me entregaram quando entregaram a chave da igreja. Mas que a minha missão mesmo é cuidar dos doentes, essa foi a missão que o Mestre me deixou. Eu vivo dirigindo a igreja mas a minha missão mesmo é cuidar dos doentes...

O surgimento da categoria de "hinos ofertados" se deu a partir dessa época como verdadeira novidade entre os daimistas do Cefluris. Mas quando recebeu as chaves do comando da igreja, juntamente com esse hino o Padrinho Wilson recebeu também instrução de que "estudasse" também o hino anterior do Padrinho Alfredo, que havia sido "ofertado" à esposa do Padrinho Manoel Corrente, Dona Maria, de modo que este caderno de hinos do Padrinho Wilson abre não-usualmente com dois hinos do Padrinho Alfredo. A conexão pode ter se devido ao fato de São Pedro ser conhecido popularmente como o "chaveiro do céu", mas outra coincidência rara surgiria depois: o Padrinho Wilson recebeu um hino "ofertado" da Baixinha que também foi ofertado ao Padrinho Corrente, e por isso os cadernos de hinos de ambos partilham um mesmo hino em comum.

Para se entender o fenômeno dos hinos presenteados, devemos recordar que os participantes do Culto do Santo Daime entre os quais surgiu essa "modalidade" foram beneficiários de uma herança cultural anterior onde músicas eram executadas em público com dedicatórias especiais, costume esse também desenvolvido nos programas de rádio, onde até hoje existem programas assim, onde se pedem que se toquem músicas para se dedicar a alguém. Essa forma de gentileza ou cortesia se estendeu ao contexto dos hinários, sendo compreendido em termos doutrinários mais como "dedicatória" do que como "presente" (se afirma que a pessoa que "dá um hino" deixa de ser dele o dono, abre mão dele, e assim deveriam fazer os que pretendem "presentear" alguém com um hino que, afinal, mais do que uma "prenda" representa também uma responsabilidade espiritual para seu "guardião"). A partir do Padrinho Alfredo, entretanto, os hinos ofertados foram utilizados até como indicadores de relação de poder - por exemplo, hinários que "abrem" com hinos ofertados pelo Padrinho Alfredo, como este do Padrinho Wilson, indicam que seu proprietário ou "guardião" se rege pela direção espiritual do Padrinho Alfredo. Isso não foi "normatizado" entretanto, e o próprio caderno de hinos presenteados ao Padrinho Corrente não abre com o hino presenteado a este pelo comandante.

São os seguintes os hinos presenteados ao Padrinho Wilson:

01 - "São Pedro" (Padrinho Alfredo)
02 - "Chave de Ouro" (Padrinho Alfredo)
03 - "Consagrando esta União" (Gecila Teixeira)
04 - "Peço a meu Mestre" (Clícia Cavalcante)
05 - "Oh Meu Divino Pai" (Maria Brilhante)
06 - "Chorando e Lembrando" (Padrinho Nonato)
07 - "Rainha do Céu" (Ramiro Nascimento)
08 - "Cavalo Branco" (José Kleuber)
09 - "Do Silêncio" (Odemir Raulino)
10 - "Parabéns" (José Kleuber)
11 - "Dou Viva a Deus no Céu" (Padrinho Nonato)
12 - "Este Reino nos pertence" (José Kleuber)
13 - "Casa Santa" (José Kleuber)
14 - "São João, São Irineu" (Eduardo Ferreira)
15 - "Pedi a Deus" (Ricardo Araújo)
16 - "Linha de Arroxim" (Vera Fróes)
17 - "A Chave da Harmonia" (Marina Ruberti)
18 - "Divina Milícia" (Alex Polari)
19 - "Três Reis do Oriente" (Maria Eunice "Linda")
20 - "Meu Padrinho" (Baixinha)
21 - "Não deixo entrar" (Eduardo Bayer)
22 - "Madrinha Zilda" (Eduardo Ferreira) *excluído
23 - "Luz do Resplandor" (Cristina)
24 - "Essa Bebida" (Morena)
25 - "Amor, Verdade. Justiça" (Vera Apolônio)
26 - "Estava em pé firmado" (Cristina Mota)
27 - "A flor milagrosa" (Manno)
28 - "Poder do Pai" (Pedro Malheiros)
29 - "Batizado" (Maria Helena)
30 - "Ao amanhecer do dia" (Eduardo Bayer)
31 - "Quem é o dono" (Francisco Corrente)
32 - "Santo e Santa" (Almira)
33 - "Papai Velho de Amor" (Maria Alice)
34 - "Comando Divino" (Xiquinha Teixeira)
35 - "Meu Padrinho" (Arlene)
36 - "Meu Pai, Dai-me Luz" (Guilherme)
37 - "Flor de Jaci" (Luís Paulino)
38 - "Rei do Amor" (Adriano)
39 - "Vou seguindo" (Paulo)
40 - "Nova Aliança" (Eduardo Bayer)
41 - "I cantá" (Paulo Sarvel)
42 - "Força da Luz do Sol" (Noêmia Cotrim)
43 - "Arroxim" (Cristina)
44 - "Amém Jesus" (Padrinho Nonato)
45 - "São Vicente" (Eduardo Gabrich)
46 - "Vamos zelar o tempo" (Paim)
47 - "Aqui" (Ramiro Nascimento)
48 - "A verdade virá a todos" (Luiz Roque)

A presente gravação do hinário "Chave de Ouro" se deu a 16 de julho de 2007, na Colônia Cinco Mil, por ocasião dos festejos de inauguração da sede do Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra, dirigido pelo filho caçula do Padrinho Wilson, Raimundo Nonato Teixeira de Souza. Uma cortesia de Eduardo Sampaio, da igreja Céu do Ceará, que inclui ainda dois bônus gravados na ocasião. Destaque para o coral de vozes femininas e a condução musical da família do Padrinho Wilson. Para baixar as mp3 com caderno de hinos em formato para impressão, clique em:


Padrinho Wilson Carneiro de Souza
(1920 - 1998)

08/08/2007

O vôo do Arroxim

"Linha de Arroxim" é o título do caderno de cura de um dos fundadores do Cefluris, o Padrinho Wilson Carneiro de Souza. Em 18 de julho de 2005 a irmã Biná quis enviar do Céu do Mapiá para toda a irmandade este seu carinhoso depoimento sobre o amigo Padrinho Wilson, falecido a 26 de junho de 1998:

Wilson Carneiro chegou da Colônia Cinco Mil chamado pelo Padrinho Sebastião que estava no Rio de Janeiro, em convalescença devido ao “grande coração”, para ajuda-lo nos trabalhos espirituais e orientar os primeiros grupos de daimistas que ser formavam no Rio e em Visconde de Mauá, e que muito se beneficiaram com a presença do ilustre professor, viva voz da doutrina do Santo Daime.

Wilson Carneiro, homem trabalhador, conceituado comerciante ambulante, conheceu o Mestre Raimundo Irineu Serra quando doente o foi procurar; obtendo a cura o acompanhou até seus derradeiros dias na terra. Recebeu diretamente das suas mãos a guarda e zeladoria do Pronto Socorro para atender os necessitados, que o proprio Mestre mandava. Função que exercia com dedicação e mestria deixando transparecer o grande amor e gratidão ao Mestre que não conhecemos em matéria.

Após a passagem do Mestre Irineu, viu no Padrinho Sebastião seu continuador, vindo em pouco tempo residir com toda sua família na Colônia Cinco Mil, sendo um dos principais colaboradores para o crescimento e sustentação da comunidade, que foi a origem da expansão da Bebida Sagrada no "mundo inteiro", como havia previsto o Mestre.

Padrinho Wilson Carneiro um dos "guerreiros do amor", fiel escudeiro do Mestre Sebastião, como ele, tinha o dom e a delicadeza de lidar com a alma feminina. Sempre rodeado de mulheres, um perfeiro cavalheiro que sabia conquistar com afeto e dedicação trabalhando sempre em benefício do bem e da cura.

Se referindo ao ritual do trabalho de cura recebido pelo Mestre dizia: "Respeito todos os rituais de trabalho sendo com Deus. Mas o trabalho que recebi do meu Pai e que dirijo não tem misturas. Não se toca no doente, não se faz massagem. Na hora que alguém cai perdendo os sentidos não se deve tocar a pessoa porque muitas vêzes está recebendo uma cura ou operação. Deve-se apenas amparar para que não fique desconfortável, deixando que o próprio Daime manifeste na pessoa. É preciso ter atenção aos hinos, não cantar acelerado para entender seus ensinamentos e poder po-los em prática. A corrente de cura exige total concentração e atenção no objetivo do trabalho para que os doentes possam se entregar com toda confiança e destrinchar espiritualmente suas visões sobre a doença, suas causas kármicas e as transformações exigidas, para que a cura possa ocorrer e se manter. Deve-se também permanecer no lugar pelo menos duas horas, só sair em caso de necessidade. O entra e sai atrapalha a corrente. Durante o trabalho não se deve beber água porque corta a miração. No primeiro trabalho que participei foi para tirar minhas dúvidas. Dentro do Daime fui operado, tiraram o intestino velho e colocaram um novo. Fiquei curado pelo Mestre, depende de confiar."

Quando vinha ao Céu do Mapiá em visita dirigia os trabalhos de cura na “Estrela”. Nessas ocasiões recebia convites para almoçar, cada dia em uma casa que esmerava para agradá-lo. Como comerciante de comestíveis gostava de comer bem. Um ancião feliz que soube aproveitar o melhor que a vida oferecia.

Este auténtico xamã do norte brasileiro está na memória daqueles que o conheceram e tiveram oportunidade de ouvir seus ensinamentos e receber curas nos seus memoráveis trabalhos na “Linha do Arrochim”. Em nome desses e em meu nome, dou viva ao Padrinho Wilson Carneiro pela data do seu nascimento.

Em depoimento no site do Ciclumig, Wilson Carneiro recordava como sempre o comportamento impecável do seu venerando Mestre:

Eu fui bem tratado pelo Mestre. Um dia, eu perguntei a ele:

- Mestre, eu queria saber que merecimento eu tenho, porque quando eu viajo, eu não levo nem rede, nem roupa e nem rancho e eu nunca dormi no chão e nunca passei fome.

- Você acredita na lei cármica?

- Acredito sim.

- É porque na vida anterior você soube fazer o seu terreno e nunca negou uma dormida, nunca negou uma comida. Então você já está recebendo. Meu filho, o terreno a gente prepara é em vida, não pense que é depois que morre não. Assim você já está colhendo.

Eu sempre visitava o Mestre, fora os trabalhos. Quando eu peguei amor por ele, eu ia lá e levava uma sacolinha. Eu levava almoço, e almoçava com ele. Na mesa, Mestre Irineu não dava uma palavra.

Desde o ano de 1966, quando tinha quatro anos de serviço no Daime, Wilson Carneiro tornou-se responsável de um Pronto-Socorro do Daime na cidade, já que a Colônia do Alto Santo distava muito do centro de Rio Branco e além disso as estradas eram intrafegáveis nos meses de chuva. Além disso, por possuir carro, o futuro Padrinho Wilson podia colaborar na expedição de Daime para Porto Velho nos aviões do Correio Aéreo Nacional, a pedido do Mestre Irineu. Desse modo a casa do Padrinho Wilson passou a ter um local para realização dos rituais de cura com o Daime, como relatei na homenagem a ele na revista Arca da União:

Para os trabalhos de cura, Wilson Carneiro chamava a senhora Clícia Cavalcante, esposa de um proeminente advogado da cidade e fardada na Doutrina há mais tempo que ele, para prestar o atendimento aos doentes cantando o hinário por ele preferido, que era o de Maria Damião. Ao saber disso, Dona Percília, chefe do ritual no Centro, corrigiu-o dizendo ser necessário que este começasse sempre pelos hinos do Mestre Irineu, pois este era o tronco da Doutrina, e ser sempre preciso principiar a "subida" pelo tronco e não pelas ramas. Assim, Wilson Carneiro começou a formar um caderno de hinos para seus trabalhos de cura, caderno este que hoje conhecemos como da "Linha de Arroxim" recordando que, quando de seus aniversários, o hinário cantado em sua residência era o de Raimundo Gomes, o qual ali comparecia com sua família todos os anos para esse serviço espiritual, e onde Arroxim era citado mais de uma vez como espírito curador "que vem como um beija-flor". Sebastião Mota, sempre convidado para esse festejo, relembraria depois em seu próprio hinário a força desse beija-flor da cura.

Linha de Arroxim
(Raimundo Gomes)

Os caminhos estão abertos
É para todos nós seguir
Eu sigo é com meu Mestre
Na linha de Arroxim

A linha de Arroxim
É linha de curador
Eu curo é para servir
Com o poder do Criador

Arroxim é um espírito
Que vem como um beija-flor
Chame a nove pontos
Que aqui logo eu estou

As estrelas do Astral
"É" quem dão forças para curar
Também nascem fortes forças
Das profundezas do mar

Eu emprego os meus esforços
É para vós aqui brilhar
Para vós ter forte luzes
Para vir nos iluminar

Eu dou o seguimento
É para todos se firmar
Para seguir neste caminho
Para nesta casa chegar

Tenho fé na Mãe Divina
Que Vós é de me ajudar
Que eu sigo é com meu Mestre
Para chegar aonde Vós está.

A presente gravação do Caderno de hinos de cura do Padrinho Wilson - hoje intitulado "Linha de Arroxim" para diferenciá-lo do outro caderno de hinos do mesmo Padrinho, o "Chave de Ouro", que reúne os hinos a ele dedicados - foi realizada em Rio Branco por seu braço-direito nas sessões de cura, o neto Washington (que foi também seu filho-de-criação no final da existência terrena de sua adorada esposa, a Madrinha Zilda Teixeira). Conheci Washington ainda solfejando com voz de "menino cantor de Viena" estes hinos de cura, antes ainda que ele se tornasse o guitarrista que é hoje, e a "cara" desse trabalho de cura para mim é mesmo ouvi-lo puxando o coro das vozes femininas na vibração própria dos "povos da floresta". A generosa colaboração é do irmão Eduardo Sampaio, da igreja Céu do Ceará, ligada ao Pronto-Socorro Raimundo Irineu Serra que comemorou o mês passado a inauguração de sua nova igreja na Estrada da Colônia Cinco Mil.

Para baixar as mp3, com arquivos de texto e para impressão anexos, clique em:


06/08/2007

Trabalho de Cura

Arte de Helka Lu: estandarte com a figura do Mestre Irineu na Igreja Céu da Lua Cheia (São Paulo)

Em depoimento ao jornal acreano Página 20, o nonagenário Mário Rodrigues Albuquerque contou sua experiência de cura com o Daime:

Seu Mário Albuquerque comenta que, logo no primeiro dia que tomou a santa bebida, começou a se metamorfosear e, na ‘miração’ que teve, viu uma mesa cheia de médicos e enfermeiros que começaram a operar o seu estômago. “Fui operado no invisível com o mestre Irineu. Guiados por Jesus Cristo, eu vi nitidamente os espíritos curadores tirando pedras dos meus rins e do meu fígado. Antes deste contato, eu sentia muitas dores e não podia comer nada. Depois do trabalho espiritual, as dores desapareceram e nunca mais adoeci”, relata. Para ele que participa da doutrina há 40 anos, o Daime é uma santa bebida. Veículo concreto para que Jesus Cristo, o mestre dos mestres, possa curar as doenças que maltrata o desgarrado homem na terra. “Isso depende também do merecimento de cada um”, diz reafirmando que quem cura mesmo é Deus. “Hoje dou testemunho dessa doutrina porque, verdadeiramente, não sinto mais nenhum tipo de doença, mesmo tendo 90 anos”.
Falando da estreita amizade que cultivava com o mestre, seu Mário conta que Irineu Serra lhe disse que, no principio da doutrina, tomou Daime, se separou da matéria, subiu para o astral e se encontrou com a Nossa Senhora, genitora de Jesus Cristo. Ele pediu a virgem mãe para que, na terra, fosse um curador de todos os males que afligem a frágil, feia e bela espécie humana. Segundo seu Mário, Nossa Senhora respondeu para Irineu Serra que ele não podia ser um curador porque iria cobrar dinheiro aos doentes, pois sua ação de cura não teria sucesso, nem para ele, nem para os enfermos, nem para ninguém. “O mestre prometeu a Nossa Senhora que não cobraria nada de ninguém e, com a promessa de Irineu Serra, a mãe de Deus colocou todos as espécies de cura, todos os verdadeiros poderes, dentro dessa bebida. E, com os poderes de Jesus Cristo manifestados na bebida, Irineu começou a curar e a criar fama no Acre e em toda a Amazônia”, testemunha o sempre amigo e discípulo de Raimundo Irineu Serra.
O ancião, no alto do seu conhecimento, define o mestre Irineu Serra como um combatente das contradições existentes nos homens, suas teorias e práticas, palavras e ações. “Mestre Irineu procurava enaltecer as virtudes e não os pseudo-defeitos humanos. Ele não atirava pedras em ninguém. Era contra a comercialização dessa santa bebida e dizia para todos que quem quisesse tomá-la viesse beber na sua origem. Entendo que a verdadeira amizade é a da ausência física, porque, de perto, ninguém é normal” (...)
Falando dos conflitos atuais que afligem a espécie humana, seu Mário Rodrigues conta que mestre Irineu Serra queria e trabalhava para a existência de paz e de tranqüilidade entre os homens. “Mestre Irineu não aceitava nenhum tipo de guerra. Ele era um cidadão de todas as raças, todos os povos, um homem simples e profundo que pertencia ao planeta terra. Ele morreu e ficou a desunião entre as pessoas, entre as famílias, entre as categorias sociais, entre os povos, isso é triste. Mas ainda é tempo do homem se redimir, se corrigir das suas contradições e dos seus pecados mundanos, infernos íntimos e conflitos sociais”, acredita o velho sábio.
Para finalizar, seu Mário diz que a mentira, a ganância, o consumismo, a falta de amor ao próximo, o teatro malfeito, a prepotência, a inveja, a luxúria, a dissimulação, a farsa, entre outras doenças psíquicas, são males e pecados maiores que o vício do álcool ou de outras substâncias entorpecentes, que também afligem e consomem os homens tolos. “Examinem a consciência, examinem direitinho... Sou pai e não sou filho...”, diz parte de um hino do também seguidor do mestre Irineu, Sebastião Mota.

Um dos mais antigos seguidores do Padrinho Sebastião, Eduardo Salles Freitas, o Padrinho Eduardo, discorre sobre os trabalhos de cura com o Daime:

"(...) as mulheres têm que cantar sempre: “Se não agüentam tem que deixar para as outras, até poder voltar. O hinário aberto tem que ser cantado inteiro, não pode puxar hinos de outros hinários. O canto tem que passar sempre a firmeza de cada um, com amor e verdade, para ter força para ajudar aos irmãos na corrente. Para isso não pode ter ciumeira na igreja, pois a cura é para todos”. Sobre os trabalhos, nos lembra que o mais sério é o feitio: “Quando o Daime está apurando é que Deus vem se aproximando. Por isso tem que ter muita concentração para fazer o Santo Daime, e não é todo mundo que pode. Essa conduta vale também para o salão, onde se deve fazer sempre belezura, e não terrores. Trabalho de cura tem que ter calma e tranqüilidade, senão não cura. Tomar Daime é pra uma finalidade só, a salvação. Bebe para limpeza de espírito, pra receber a luz, se arrepender e ter salvação. O professor é o Santo Daime, e ele só ajuda se a pessoa merece”. “Não devemos esquecer da dieta de três dias antes e três dias depois do Daime, tanto para entrar quanto pra sair”, fala o Padrinho Eduardo – “a doutrina de Sebastião Mota é fora de toda vaidade, não se bebe bebida alcoólica”, e afirma: “Deus é a perfeição do sol, da lua e das estrelas, não tem moda, não tem modelo” (...)"

A antropóloga Sônia Weidner Maluf, da UFSC, nos brinda novas referências a respeito em seu ensaio Mitos coletivos, narrativas pessoais: cura ritual, trabalho terapêutico e emergência do sujeito nas culturas da "Nova Era":

O que aqui denomino de trabalho terapêutico e espiritual compreende um conjunto de procedimentos, práticas e técnicas ligado a diferentes saberes terapêuticos e tradições religiosas e espirituais — meditação, uso da astrologia e de técnicas divinatórias como instrumentos de autoconhecimento (o tarot ou as runas), florais de Bach, terapia de vidas passadas, método Fischer-Hoffman, renascimento — que se fazem presentes em rituais de linhagens religiosas e espirituais estabelecidos como o Santo Daime, o movimento neo-sânias etc.
Cada indivíduo — paciente ou terapeuta — utiliza de modo singular um repertório variado, algumas vezes associando técnicas e concepções aparentemente contraditórias. Essas experiências distribuem-se em um leque de situações mais puramente terapêuticas do que as de caráter fortemente espiritual ou religioso. São adotados desde procedimentos típicos das psicoterapias "convencionais", ou mesmo da biomedicina, até aqueles que estão mais próximos de uma experiência ritual e religiosa, além da utilização de práticas e de saberes terapêuticos populares. Do mesmo modo que certos universos rituais incorporam processos de tratamento advindos de outras tradições, técnicas diversas são associadas segundo arranjos os mais variados, mesmo quando os mecanismos que visam à cura ou ao alívio dos sintomas, as formas de cuidado e a maneira de conceber o objeto do trabalho terapêutico são diferentes. Esse ecletismo aparentemente pragmático mostra, no entanto, formas e sentidos comuns dados ao trabalho terapêutico e espiritual, constituindo sínteses cosmológicas singulares.
A dupla implicação entre o terapêutico e o espiritual é uma característica recorrente nas diferentes situações observadas e na própria forma pela qual os protagonistas descrevem essas experiências. Uma dimensão religiosa está presente no trabalho terapêutico, assim como um sentido terapêutico é dado aos rituais (expressões como "o Daime é a cura" são exemplos disso). O cruzamento dessas duas dimensões não repousa apenas na combinação de técnicas e de procedimentos diferentes, mas sobretudo nos sentidos dados à experiência.

O site do Cefluris assim define o caderno de hinos conhecido como "Trabalho de Cura do Padrinho Sebastião", institucionalizado por este Centro:

Os trabalhos de cura compreendem diversos tipos: Trabalho de Estrela, Mesa Branca, São Miguel, Cruzes e Trabalhos para as Almas. No tempo do Mestre Irineu os trabalhos de cura eram basicamente de Concentração, já o Padrinho Sebastião acrescentou uma seleção de hinos que foi aos poucos ampliando-se até chegar na atual versão do nosso Hinário de Cura (...) Além dos hinos listados, podem ser cantados outros, sempre de acordo com as solicitações do próprio trabalho. Em alguns casos podem ser abertos outros hinários também empregados para cura como é o caso, principalmente, dos hinários de João Pedro, Tetê e dos Finados (Antônio Gomes, Maria Damião, Germano Guilherme, João Pereira). A corrente de cura exige total concentração e atenção no objetivo do trabalho para que os doentes possam se entregar com toda a confiança no destrinchamento espiritual de suas visões sobre a doença, a compreensão das usas causas kármicas e às transformações exigidas para que a cura possa ocorrer e se manter.
A abertura é normal: Oração, Consagração do Aposento, pequena concentração e ínicio do Hinário de Cura. É usada a farda azul, as pessoas permanecem sentadas em torno do Cruzeiro. A mesa é constituída normalmente por 7, 9, ou 12 pessoas, incluindo o presidente da mesa.
Os beneficiados não devem sentar diretamente na mesa, podendo ser acomodados em locais especiais (quarto de cura) sempre próximos à mesa de trabalho. Como é habitual, homens e mulheres sentam separadamente. Os médiuns curadores em serviço podem se movimentar na atenção aos doentes, sempre de acordo com o presidente da mesa. Além dos médiuns, devem permanecer na Estrela um fiscal de salão e um fiscal de terreiro, além do despachador de Santo Daime (não necessariamente o presidente da mesa). Devem ser evitados os instrumentos musicais, inclusive maracás, quando não há uma equipe treinada adequadamente. Os hinos devem ser bem cadenciados, intercalados com pausa, a critério do chefe da sessão.
A praxe é fazer o primeiro despacho do Santo Daime antes da Oração, outro após a concentração ou no ínicio do Hinário de Cura. E ainda um terceiro despacho opcional do hino "O Daime", do Padrinho Alfredo, em diante. Para o encerramento, canta-se o Cruzeirinho do Mestre Irineu, e procede-se as orações de encerramento, incluindo a Prece de Cáritas.
Caso seja necessário, o presidente da mesa deve solicitar que os doentes permaneçam na Estrela após o encerramento do trabalho – acompanhados por um fiscal – para melhor aproveitamento do benefício recebido. É apropriado que os locais onde acontecem os trabalhos de cura tenham acomodações apropriadas para receber os doentes.
Trabalhos de Estrela: Sob esta designação reúnem-se todos os trabalhos que são feitos na Casa de Estrela, que mesmo tendo uma característica marcante de cura tem também como finalidade a instrução e ensaio de hinários, abertura de banca, ou outro tipo de trabalhos como aqueles que reúnem jovens, homens ou mulheres das comunidades daimistas. Abre-se igualmente ao trabalho de cura e encerra-se com o Cruzeirinho do Mestre Irineu.

É bom observar que o chamado Trabalho de Estrela desde o seu surgimento requisitava a construção de um espaço ritual próprio, e trabalhos como estes, ditos de "desenvolvimento mediúnico" específico, deveriam estar reservados a esses espaços deixando-se o espaço das igrejas para os trabalhos doutrinários próprios como o "Trabalho de Cura" formulado pelo Padrinho Sebastião. O site Luz da Floresta nos elucida ainda:

Cremos que, apesar das diferenças de rituais, os ensinamentos doutrinários e o fenômeno da miração são convergentes em todas as igrejas e centros que trabalham com o Daime ou Vegetal de forma sacramental. As diferenças doutrinárias refletem diferentes contextos e demandas espirituais e devem ser entendidas e respeitadas. O Daime vem a ser a para nós um Acelerador, um Atalho Cármico. Através dele, os daimistas acreditam que qualquer um, que esteja sinceramente disposto a se transformar, poderá chegar, num tempo mais reduzido, ao conhecimento de Si-Mesmo e do Universo. O resultado desse trabalho espiritual interior não é apenas uma propriedade de um alcalóide que inibe uma enzima de um neuro-transmissor cerebral. Não é um fenômeno que pode ser induzido por experiências de laboratório. O trabalho espiritual envolve sistemática transformação pessoal e provas disso no dia a dia. O trabalho com o Santo Daime busca a nossa reunificação no Uno, no Todo e usa o corpo e a mente como uma ferramenta de trabalho. Essa perspectiva espiritual não reduz nossa capacidade de ajuste no mundo, mas pelo contrário a amplia. Depois de realizado o Sacramento do Santo Daime, o sentido maior da nossa irmandade é comungar com ele nas festas que chamamos Hinários.

Para baixar os hinos que compõem o "Trabalho de Cura do Padrinho Sebastião", gravados em estúdio com a equipe do Céu do Mapiá, com cadernos para impressão e cifras musicais, clique para download em:


Ritual em Brasília com Luiz Mendes e equipe do CEFLI, em foto de Lou Gold

Não deixem de ler: Recomendações Especiais para a Recepção de Iniciantes, por Eliseu Labigalini Jr. (labigalini@ig.com.br). Labigalini é médico-psiquiatra e pesquisador do Proad (Programa de Orientação e Assistência ao Dependente), da EPM - Escola Paulista de Medicina, UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, e membro do Núcleo de Cura e Saúde do Cefluris - Regional SP

25/07/2007

"Nova Jerusalém"

Xilogravura de Julius Schnoor von Carolsfeld, originalmente parte de Das Buch der Bücher in Bilden.

"Estas coisas me foram concedidas ver e por elas perceber, claramente, o que vem do Senhor e o que vem dos anjos. O que vem do Senhor, eu escrevi, e o que vem dos anjos, não escrevi. Ademais, foi-me concedido falar com os anjos como um homem fala com outro homem, e ver as coisas que estão nos céus e nos infernos, e isto pelo fato de que a Igreja atual chegou ao seu fim, e está às portas o começo de uma nova, que será a Nova Jerusalém. E para esta deve ser revelado que o Senhor governa o universo, o céu e o mundo, que há um céu e um inferno, e como eles são; e que os homens vivem como homens após a morte, os que foram conduzidos pelo Senhor, no céu, mas o que se conduziram a si mesmos, no inferno; a Palavra é a Divina verdade mesma do Senhor na terra; e também que o Juízo Final está cumprido, a fim de que o homem não fique em eterna expectativa neste mundo; além de muitas outras coisas que pertencem à luz que agora surge após as trevas". (Emmanuel Swedenborg)

No MJBI - Messianic Jewish Bible Institute , encontramos as seguintes considerações:

"Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a CIDADE SANTA, a NOVA JERUSALÉM, que DESCIA DO CÉU, da parte de D'us, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então ouvi grande voz vinda do trono dizendo: Eis o TABERNÁCULO DE D'US com os homens. D'us HABITARÁ com eles. Eles serão povos de D'us, e D'us mesmo estará com eles..." (Apocalipse 21.1-3) Veja, como aquele Tabernáculo nos CÉUS, começa sua descida, observe como as orações dos santos se cumprem, observe como que na verdade ao invés de irmos aos céus, é ele que está vindo até nós. Ela vem ataviada, D'us finalmente 'HABITARÁ CONOSCO' e Ele não perguntará mais: "Onde estás?". Então ele transformará o nome da Cidade Santa, pois "... o nome da cidade desde aquele dia será: ADONAI SHAMÁ (O ETERNO ESTÁ ALI)" (Ezequiel 48.35), por isso:"Todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão de ano em ano para adorar o Rei, O Eterno dos Exércitos, e para celebrar a Festa dos Tabernáculos" (Zacarias 14.16). As nações abrasadas pela habitação de D'us, embriagadas pela sua presença virão ao Monte do Senhor, "as nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua glória... E lhe trarão a glória e a honra das nações..." (Ap 21.24 e 26). Então a ordem do Éden é restaurada, a criação que gemia e suportava angústias por causa do pecado (Rm 8.18 e seg) agora é nova e transformada, pois "No meio de sua praça, de uma e outra margem do rio, está A ÁRVORE DA VIDA..." (Ap 22.2). Nesta Nova Jerusalém "Nela jamais penetrará coisa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira, mas somente os inscritos no Livro da Vida do Cordeiro" (Ap 21.27). Veja como este princípio também existe no judaísmo: "... A Jerusalém do mundo vindouro não será como a Jerusalém atual. A Jerusalém atual pode subir quem quiser; à Jerusalém do mundo vindouro somente poderão subir os convocados" (Talmud - Bava Batrá 75b).

Segundo o Vaticano, o Apocalipse de João, mesmo estando cheio de referências contínuas a sofrimentos, tribulações e pranto na face obscura da história está de igual modo repleto de frequentes cantos de louvor, que representam quase a face luminosa da história. Assim, por exemplo, lê-se nele que uma grande multidão, que canta quase gritando: "Aleluia! O Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso, começou o seu reinado! Alegremo-nos, rejubilemos, dêmos-lhe glória, porque chegou o momento das núpcias do Cordeiro, a sua esposa já está pronta" (Ap 19, 6-7). Estamos diante do típico paradoxo cristão, segundo o qual o sofrimento nunca precipita como última palavra, mas é visto como ponto de passagem para a felicidade. Aliás, ele mesmo já está misteriosamente cheio da alegria que brota da esperança. Precisamente por isto João, o Vidente de Patmos, pode encerrar o seu livro com uma última aspiração, palpitante de expectativa trepidante. Ela invoca a vinda do Senhor: "Vinde, Senhor Jesus!" (Ap 22, 20). É uma das orações centrais da cristandade nascente, traduzida também por São Paulo na forma aramaica: "Marana tha". E esta oração "Vinde, Senhor Jesus!" (1 Cor 16, 22) tem diversas dimensões. Naturalmente é antes de tudo expectativa da vitória definitiva do Senhor, da nova Jerusalém, do Senhor que vem e transforma o mundo. Mas, ao mesmo tempo, é também oração eucarística: "Vinde Jesus, agora!". E Jesus vem, antecipa esta sua chegada definitiva. Assim com alegria dizemos ao mesmo tempo: "Vinde agora e de modo definitivo!". Esta oração tem também um terceiro significado: "Já viestes, Senhor! Temos a certeza da vossa presença entre nós. É uma experiência jubilosa. Mas vinde de modo definitivo!". E assim, com São Paulo, com o Vidente de Patmos, com a cristandade nascente, também nós rezamos: "Vinde, Jesus! Vinde e transformai o mundo! Vinde já hoje e vença a paz!".

"Nova Jerusalém" é o título dado pelo Padrinho Sebastião ao caderno de hinários que, após mais de quatro anos sem receber hinos, estando concluído o caderno de "O Justiceiro", foi aberto no Céu do Mapiá em 1983. O primeiro hino, "O Convite", foi recebido após um trabalho, conjuntamente com sua cunhada a Madrinha Júlia. Foi então que foi criada a figura do "hino presenteado", ou "ofertado", antes inexistente pois segundo o Mestre Irineu cada qual devia ser responsável "total" pelas flores recebidas em forma de cânticos em sua trajetória na Doutrina. O primeiro hino foi ofertado à Madrinha Júlia, e a partir daí os hinos seguintes foram todos dedicados a pessoas da irmandade mapiense, concluindo-se com o hino 26, que o Padrinho dedicaria a seu futuro genro, o Padrinho Paulo Roberto, da Igreja Céu do Mar. Justifica-se essa "doação" ou "dotação" de hinos pelo fato do Padrinho ter o seu hinário completo, ou seja, fechado, e querer prosseguir com seus ensinos presenteando os seguidores mais próximos, motivo pelo qual o novo caderno de hinos foi criado. Na verdade, após muitas tribulações para encontrar um lugar de selva onde se estabelecer em definitivo com sua irmandade, o Padrinho Sebastião considerava a vida no "Céu do Mapiá" um novo tempo, e é em torno dessa "nova igreja" que os seus derradeiros hinos estariam dedicados.

Segundo nos relata Walter Dias Junior, no início de 1980, "padrinho" Sebastião anuncia o começo de uma nova fase de peregrinações, em busca de um local para a construção de outra sede para seu grupo: a “Nova Jerusalém na terra”. Ele parte em busca de um local na floresta, capaz de oferecer melhores condições de sobrevivência material para seu grupo, pregando um retorno às origens. Claro que esta sua decisão está de acordo com as instruções "recebidas" do astral, durante a miração. A seguir, ele relata os motivos que o levaram à nova mudança: "... Daqui vou me mudando, porque já me acho cansado de tanta luta aqui e os pastos já estão tão mal divididos que, se planta uma coisa, não dá mais, não tem aquele rendimento. Os próprios campos já estão acabados com carrapicho, coisa dura. Não se tem dinheiro para se botar um trator e virar a terra e as condições de vida cada vez mais difíceis; o preço das coisas cada vez mais alto. Não dá prá mim não. Vou tratar da seringa, ela já está na mata. Está trancada, mas se tratar de zelar dela, vai dando o que comer. Aqui não dá mais..."

No auge desse período, a Cinco Mil chegou a abrigar cerca de 300 a 400 pessoas, ultrapassando seus limites e suas possibilidades de produção. Como as demandas do grupo continuavam avolumando-se e os recursos locais já não bastavam, a alternativa possível era a migração para o centro da mata. Esse movimento teve início em 1980 e, com orientação do próprio Instituto de Colonização e Reforma Agrária -INCRA- a comunidade instalou-se no seringal Rio do Ouro, no município de Boca do Acre, Amazonas, situado às margens do Igarapé Rio do Ouro, na altura do quilômetro 53 da rodovia Br-317. Esta que, segundo o INCRA, seria uma gleba de terras devolutas, passou a ser beneficiada pela instalação da comunidade do padrinho, com a implantação de roçados, a abertura de estradas de seringa para a extração de borracha e várias outras benfeitorias. Sobre esse processo, novamente é Vera Fróes quem nos conta: "...em maio de 1980 iniciou-se o movimento em direção ao seringal Rio do Ouro e no espaço de pouco mais de um ano cerca de 200 pessoas já estavam morando no local, ocupando uma área com cerca de treze mil hectares, explorando vinte colocações de seringa e produzindo 15 toneladas de borracha/ano, residindo em 36 casas, possuindo grandes roçados, criação de patos e galinhas. Para surpresa de todos, o "padrinho" anunciou em 1981 que aquele ainda não era o local determinado pelo astral e onde se ergueria a Nova Jerusalém. Concomitantemente, surgiram pressões de pessoas interessadas nas terras desbravadas pela comunidade. Pessoas que possuíam um título de propriedade com inúmeras irregularidades, ainda do início do século e que dava a área como propriedade de um fazendeiro sulista. Apesar de ter sido a própria representação do INCRA na região quem deu autorização para a comunidade instalar-se no seringal Rio do Ouro...” (1986, p. 120).

(...) Retomando a saga do grupo vinculado ao "padrinho" Sebastião, depois de dois anos de trabalhos no seringal Rio do Ouro, ele abandona o local, devido à demanda fundiária. Então, em 1982, a comunidade foi obrigada a se retirar, sem receber qualquer indenização pelo seu trabalho. Novamente, o grupo dá início a outro êxodo que, dois anos mais tarde, culminará com a ocupação de uma gleba de terras às margens do igarapé Mapiá. (...) Foi o próprio INCRA quem informou à comunidade a existência de outra área arrecadada pela União, sem proprietários, para onde poderiam se transferir. Essa nova gleba de terras passou a ser ocupada a partir de 1982, e localizava-se no Igarapé Mapiá, afluente do Rio Purus, no município de Pauini, Amazonas, ficando distante cerca de 150 quilômetros do seringal Rio do Ouro.

Em 1989, o seringal Céu do Mapiá já reunia em torno de 300 pessoas com residência fixa e mais um outro tanto de população flutuante. A comunidade do padrinho vivia da agricultura e da extração de látex e de castanha, embora essa região não seja muito propícia para ambas atividades. Isso porque, durante décadas, o Mapiá já havia sido explorado como seringal e o manejo predatório destruiu a possibilidade de continuação da extração de látex de boa parte das seringueiras. Essas árvores foram inutilizadas de maneira definitiva devido à utilização de técnicas inadequadas de corte do tronco para a extração do látex. Até hoje, essa região apresenta escassez de peixes, animais e madeiras boas em relação a outras áreas próximas à cabeceira dos igarapés da região, provavelmente também em função da forma de exploração predatória ocorrida desde o início do século vinte.

Talvez em função dessa realidade, durante o período inicial de assentamento já existam planos elaborados pela comunidade, prevendo a necessidade de um novo deslocamento de parte dos moradores da Vila Mapiá para a cabeceira do Igarapé Inauiní, com a finalidade de instalar uma reserva extrativista de látex e castanha: o Trono do Sol. Por enquanto, deve-se ressaltar apenas o fato de que essa proposta revela a necessidade de uma nova retirada do grupo (após a morte do padrinho Sebastião, ocorrida em 20 de janeiro de 1990), agora sob a liderança de Alfredo Gregório de Melo, filho do padrinho. (...) Hoje, o Céu do Mapiá coloca-se como polo assistencial para boa parte dos ribeirinhos da região média do Rio Purus, próximo ao igarapé do Mapiá. São mais de duzentas famílias que, sistematicamente, buscam o apoio da comunidade daimista para auxiliar em sua sobrevivência. A comunidade do Céu do Mapiá possui algumas características peculiares, que a diferenciam, em certos aspectos, dos demais grupos que professam a doutrina do Mestre Irineu. Ela foi a única a retomar a proposta original de comunidade rural praticada pelo Mestre e abandonada no Alto Santo, após seu falecimento. Foi também a única que empreendeu o movimento de expansão do culto em direção a outras regiões do país e do exterior, criando uma igreja sede com estrutura nacional e várias outras a ela filiadas.

Todos esses fatos ocorreram simultaneamente a intenso processo de mudanças sociais, econômicas e culturais por que passou todo o Estado do Acre desde a década de 1970. Nesse período, por exemplo, Rio Branco viveu um processo de expansão que, em dez anos, fez com que a população da cidade fosse duplicada. No bojo desse movimento, a comunidade do "padrinho" Sebastião absorveu com grande intensidade o fluxo de jovens de classe média e de origem urbana de outras regiões e países, que migraram para lá, provavelmente em busca de uma relação mais ecológica e mística com a natureza.

O perfil do "daimista" (como é chamado o adepto da doutrina) da comunidade fundada pelo padrinho Sebastião modificou-se gradativamente a partir de então, deixando de ser constituído exclusivamente por seringueiros e caboclos. Gradativamente, passa a assumir uma nova face, mais cosmopolita, ao integrar esses novos personagens, com suas crenças e hábitos urbano-industriais. Entretanto, a comunidade procura manter-se fiel às origens doutrinárias, buscando assimilar as novas influências e adequá-las às tradições xamânicas. Essas tradições assentam-se em algumas crenças anímicas que conferem aos objetos, substâncias e símbolos, determinados atributos essencialmente sagrados. Sobre a doutrina do Santo Daime e suas crenças, "padrinho" Sebastião é esclarecedor: "...A doutrina não existe, mas se fala. Ninguém doutrina ninguém. Cada um é seu próprio doutrinador. A mãe em sua bondade nos acolhe a todos. Nós usamos as plantas santas sim. Qual é o pecado? Qual é o crime de usar aquilo que brota na terra que é nossa mãe? Tem uma ligação divina nessas plantas que une o reino da Terra com o reino do Céu. A gente seria muito bobo se não usasse elas para descobrir o lado espiritual das coisas. Deus nos manda a sua verdade através da sua obra. Só agora é que vão chegar as pessoas que foram convocadas para dar o testemunho de que essas ervas nos levam aos espíritos. A gente tem que se preparar para ser um povo santo... Temos que nos ajuntar e mostrar o que estamos aprendendo com amor, boas palavras, mansidão. Até encontrar com o Eu Superior. Nisso aqui é que está nossa doutrina... A doutrina somos todos nós, é apresentar uma coisa divina, nós não devemos ter medo, somos um grupo que procuramos o espiritual..." (Alverga,1984, pp. 308-309).

Justamente por estar impregnada pelo sagrado é que se torna possível a inversão dos sinais, que em nossa cultura adquirem sempre significados negativos e, nessa concepção, são colocadas como experiências positivas de encontro, de união com os poderes divinos do universo. Aí, essas "plantas de poder" estão colocadas a serviço da comunidade, não possuindo o caráter anti-social estigmatizado por nossa própria cultura. Elas representam, virtualmente, um elo entre o universo profano e o sagrado. É através delas que esses homens penetram no mundo dos espíritos, no conhecimento esotérico. É importante ressaltar, ainda, que a atual retomada do projeto de organização do Mapiá em comunidade, bem como seu processo de expansão em direção aos grandes centros urbanos e ao exterior, simultaneamente ao processo de abertura interna para a adoção de novas práticas rituais e valores religiosos, são características específicas do CEFLURIS. Entretanto, somente esse fator não parece explicar satisfatoriamente o fenômeno, o que nos leva a buscar nos elementos de positividade, internos ao próprio grupo, as pistas necessárias à compreensão desse processo. (...)"

Marcelo Bolshaw Gomes acrescentará:

Os hinos do Santo Daime também versam sobre uma transformação nas condições de vida da humanidade - “o fim dos tempos”, “o Apocalipse”, “o balanço” - e sobre o advento da utopia social, a “Nova Jerusalém”, “o Reino de Deus na Terra”. Em relação a este ideal de utopia social, os participantes dos rituais afirmam que “a vida comunitária é um aspecto fundamental na doutrina do Santo Daime. Através dela aprendemos e construímos na prática o significado da União, que cantamos nos hinários”. Para eles, “quando tomamos Daime e cantamos hinos estamos apenas acelerando e intensificando conflitos e relações interpessoais que se desenvolvem no nosso cotidiano comunitário”. O objetivo a longo prazo, ao que prece, é conquistar no dia-a-dia uma união material tão sólida quanto a união mística alcançada nas cerimônias. “Assim”, concluem, “realizamos o ideal da Nova Jerusalém”. Desta forma, a União, metáfora da comunidade e símbolo da utopia social, é uma das entidades centrais dos rituais e da filosofia da doutrina do Santo Daime.

O Padrinho Sebastião, além do caderno de hinos por ele ofertados, também possuía um caderno de hinos a ele dedicados. Seu filho, o Padrinho Alfredo, além de passar a "dedicar" hinos de seu próprio caderno desde então (desde o hino 25, "Marcha da Bandeira", dedicado à Madrinha Graça, nora do Padrinho Wilson), também abriu um caderno de hinos dedicados a si, costume que se estendeu e é motivo de hoje contarmos com cadernos de hinário que são conhecidos como sendo do Padrinho Wilson Carneiro ou do Padrinho Manoel Corrente, quando estes na verdade nunca receberam hinos, apenas se tornaram guardiões de hinos a eles dedicados por membros da irmandade do Centro.

Para baixar o "Nova Jerusalém" em mp3, em gravação do Céu do Mapiá, com o caderno das cifras musicais, clique em: