30/05/07

Sessões Musicadas

Instrumentos musicais da casa do Mestre, no Memorial Irineu Serra (Rio Branco - Acre)

Quem conhece hoje o ritual do Daime na Doutrina de Juramidam pode imaginar que este desde um primeiro momento houvesse sido desenvolvido com o acompanhamento de instrumentos musicais, tamanha a presença e a importância dos músicos no desenvolver dos trabalhos. Entretanto, à exceção dos maracás, que possuem função rítmica tanto no acompanhamento do canto quanto no esquadrejamento do baile, não houve acompanhamento de instrumentos musicais nas sessões de hinário por muitas décadas, e importantes nomes como Antônio Gomes, Maria Marques e João Pereira jamais tiveram o prazer de bailar seus próprios hinários acompanhados por violões, por exemplo. O que chegaram a presenciar foi, em sessões de concentração, Daniel Pereira de Matos, amigo maranhense do Mestre Irineu que ainda nos anos 40 veio a fundar um centro com ritual próprio, executando em seu violino algumas peças musicais para ambientação:

Foi no desenvolvimento de suas atividades como carpinteiro, que Daniel Pereira de Matos passou a fabricar seu próprio instrumento e compor suas músicas. "
Ele só tocava músicas dele, até os instrumentos eram feitos por ele", volta a afirmar Raimundo Gonçalves. Com o tempo, Mestre Irineu passou a utilizar as valsas compostas por sua autoria, instituindo um ritual de Sessões Musicadas. "Nós tínhamos um sistema de trabalho que era o seguinte: o padrinho Irineu dava um serviço de concentração e o Daniel tinha umas teorias de fazer valsas dele. Então quando chegava numa parte do trabalho, o padrinho Irineu mandava o Daniel tocar aquelas valsas dele que eram bonitas. A gente se concentrava naquela música que ele tocava. Então era assim que o Daniel participava dos trabalhos no tempo em que ele estava com o Mestre Irineu", acrescentou o sr. Raimundo Gonçalves).

Depois da participação de Daniel Pereira de Matos, se conta que certa ocasião um visitante cego que tocava violão pediu permissão para acompanhar os hinos de uma sessão bailada com seu instrumento, e apesar de não os haver sequer estudado antes causou excelente impressão e a vontade de que isso pudesse se dar com os próprios fardados da casa a cargo dos instrumentos musicais. Apesar de que as datas cronológicas constantes da monografia de Jairo Carioca sejam muitas vezes passíveis de revisão, a de 1958, que ele aponta para a introdução de instrumentos no ritual, é bem cabível de ser verídica já que inserida em um contexto vinculado ao regresso do Mestre Irineu à sua viagem ao Maranhão:

Daniel Pereira de Matos, que havia seguido seu caminho espiritual, deixou aberto na escola do Mestre Irineu o dom da música, a harmonia dos acordes musicais que executava com esplendor e maestria. A chegada da Família Carioca na sessão marca a introdução de instrumentos no ritual sagrado instituído pelo Mestre Irineu. Embora houvesse alguns tocadores de violão no Alto Santo, quem estimulou a idéia de solo aos hinos foi o sr. Júlio Chaves Carioca. "Comprei um bandolim para a Lourdes, o Mestre disse que um cavaquinho seria mais fácil para aprender. Comprei um cavaquinho, depois com um tempo, o Mestre pediu para comprar um violão para ela, e me deu naquela época 8 mil réis para comprar um violão para sua esposa, comadre Peregrina", relata Júlio Carioca. Foi a partir da compra desses violões que formaram-se os primeiros grupos musicais no Alto Santo. "O Mestre ensaiava o ritmo conosco, batendo seu maracá ao nosso lado. Ele mandava que nós nos concentrássemos e invocássemos o Mestre Daniel Pereira de Matos para vir ensinar a gente a tocar. Com pouco víamos os locais dourados aonde tínhamos que bater nas cordas: dito ninguém acredita", conta dona Lourdes Carioca, que formou o primeiro trio de tocadores, ao lado de dona Peregrina Serra, e de seu esposo Júlio Carioca. Depois outros seguidores foram se interessando pelo aprendizado da música: - Raimundo Gonçalves (banjo) - Maria Laurinda; - Jovita Gomes; - Adália Grangeiro; - Tolentino (todos com violão); - Enoque (bandolim); - João Serra, sobrinho do Mestre (pandeiro) formavam novos grupos de músicos da Doutrina. Sabe-se que desses seguidores formaram-se como primeiros tocadores: Júlio Carioca, Lourdes Carioca, Peregrina Serra e Maria Zacarias (violão), Raimundo Gonçalves (banjo) e João Serra (pandeiro). O violão, o banjo, o bandolim e o pandeiro passavam a ser os instrumentos originais do trabalho. Não poderíamos deixar de registrar nesse contexto, a passagem na sessão de Francisco, o Chiquinho Cego, como era conhecido devido a cegueira adquirida aos sete anos de idade. Foi ele quem iniciou as aulas de violão aos irmãos Júlio Carioca Filho, João Batista Carioca e José Carlos Carioca, que mais tarde firmam-se como músicos oficiais da Doutrina.

Na atualidade os músicos são tão presentes na execução dos hinários que alguns centros chegam a ter um lugar específico para eles se colocarem durante os bailados. No Alto Santo assim como nos centros mais próximos, bem como nas igrejas da Barquinha (surgidas a partir da labor de Daniel Pereira de Mattos), o destaque vai para os suaves e magníficos arranjos para teclados eletrônicos. Nas igrejas ligadas a outra Barquinha (a do Padrinho Sebastião), são notáveis os trabalhos em instrumentos de corda (especialmente violões acústicos e guitarras elétricas), sopro, assim como a percussão com tambores ou atabaques. Conheça de Guilherme Granjeiro, neto de Antônio Gomes, dois cds com hinos variados em versões instrumentais, extraindo o download em:

Um comentário:

Anônimo disse...

O Link da parte 2 foi tirado do ar pela Media fire....reload please???